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“A disciplina do amor”, de Lygia Fagundes Telles

Este não é exatamente o meu livro preferido de uma das minhas autoras preferidas, a Lygia. Mas vale a pena a leitura. Eis alguns…

TRECHOS:

“Me alinhei ao lado dos humildes e descobri que não era bastante humilde para ficar junto deles”.

“Me alinhei ao lado dos fortes e vi que não era suficientemente forte para sustentar por mais tempo aquela arrogância”.

“Mas quem me detesta tanto assim para me atacar até no sonho? quis saber e nesse instante vi minha imagem refletida no espelho”.

“Índio, escritor e árvore – as três espécies em processo de extinção”.

“Não chore, não tussa, não ria, isto é, ria discretamente porque senão o próximo já vem pegar no seu braço, ficou de porre?”

“Neste sistema burguês, onde só tem importância a aparência, com todos defendendo ferozmente a aparência, incluindo-se os neuróticos mais angustiados ainda porque reprimidos – dentro desse mecanismo, comecei a superestimar a coragem”.

“E o soldado que acerta em cheio a bomba de napalm no vilarejo e recebe medalhas e tratamento de herói – esse é um bravo?”

“Com muita ênfase um psiquiatra declarou que o número de loucos na nossa cidade aumentou assustadoramente. Grande novidade. Era como se estivesse nos informado que o mel é doce”.

“Testemunhar o seu tempo – respondi a um jovem que me perguntou qual é a função do escritor”.

“Ele estava com um livro na mão mas não lia, olhava em frente, quieto. Perguntei o que ele estava olhando. “Estou olhando aqui dentro de mim mesmo” – ele respondeu. E o que você está vendo é bonito? – eu quis saber e seus grandes olhos esverdeados estavam úmidos e neles, com num espelho, vi refletido o seu interior. Fui saindo na ponta dos pés”.

“Os possessos da Soberba evitam as aglomerações, as misturas. Portas fechadas, o horror da invasão. Dos nivelamentos. Gostam das reuniões sociais seletas mas espaçosas, onde os peitos estufados, cobertos de medalhas, iniciam a lenta dança dos pavões – poder político, poder econômico e outros poderes, varetas dos leques que se cruzam mas não se olham, o que digo? se olham para admirar a própria imagem refletida do outro”.

“A função do escritor? Ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade. Escrever por aqueles que não podem escrever. Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer. Comunicar-se com o próximo e se possível, mesmo por meio de soluções ambíguas, ajudá-lo no seu sofrimento e na sua esperança”.

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07/04/2015
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