Textifique

A poesia de Anna Akhmatova

Por Wigvan Pereira

Anna Akhmátova, pseudônimo de Anna Gorenko (1889-1966), foi uma poetisa russa que, na época do stalinismo, teve seu filho, o historiador e escritor Liov Gumiliov, preso e assassinado.

Seu espírito não combinava com o papel de mãe, por isso ela o deixou aos cuidados da avó paterna, algo do qual Liov se ressentia. Ressentia-se também de não receber cartas da mãe na prisão, no máximo cartões postais.

Ele não sabia que, diante da porta da prisão de Leningrado, ela escrevia sua obra mais conhecida: Requiem (Реквием), na qual o regime stalinista é desenhado a partir do seu olhar sangrado. “E ei-la separada do mundo inteiro, como se de seu coração sua vida se arrancasse”.

Teve três maridos e há quem diga que ela teve um romance com Modigliani em uma breve passagem por Paris. Sua poesia, que alcançara grande popularidade, foi proibida por uma resolução do Comitê Central do PCURSS, em 1946.

Perseguida e vigiada pelo governo, foi definida por Andrei Jdanóv como “metade freira e metade vagabunda”. Jdanóv também a acusou de envenenar as mentes da juventude soviética.

Em 1950, a poetisa publicou “Em louvor da paz”, poemas propagandísticos, pretendendo com eles salvar o filho que, segundo ela pensava, havia sido preso depois de ela se encontrar com o filósofo judeu Isaiah Berlin. Ela pediu que esses poemas fossem omitidos de suas obras completas.

Abaixo, alguns de seus poemas, presentes em Requiem e traduzidos por Lauro Machado Coelho.

I

Levaram-te embora ao amanhecer.
Atrás de ti, como quem acompanha um carro fúnebre, eu segui.
No quarto às escuras, as crianças soluçavam
e a vela gotejava diante do ícone.
Teus lábios estavam gelados como uma medalhinha.
Do suor mortal em tua fronte nunca me esquecerei.
Como as viúvas dos Striéltsi, eu também
irei gritar diante das torres do Kremlim.

(1935)

V

Há dezessete meses choro,
chamando-te de volta para casa.
Já me atirei aos pés de teu carrasco.
És meu filho e meu terror.
As coisas se confundem para sempre
e não consigo mais distinguir, agora,
quem a fera, quem o homem,
e quanto terei de esperar até a tua execução.
Só o que me resta são flores empoeiradas
e o tilintar do turíbulo e pegadas
que levam de lugar nenhum a parte alguma.
E bem nos olhos me olha,
com a ameaça de uma morte próxima,
uma estrela enorme.

IX

Já a loucura com as suas asas
envolveu-me toda a alma,
me encharcando em seu licor,
levando-me ao vale das sombras.

Ouvindo o meu delírio
como se fosse o de outra,
está certo, sei que devo
admitir que ela venceu.

Eu sei que não deixará
que eu leve nada comigo
(por mais que eu lhe peça,
por mais que eu lhe implore):

nem os olhos do meu filho
que a dor petrificou,
nem o dia do terror,
nem o dia da visita,

nem o frio de suas mãos,
nem o tremular dos álamos,
nem o som que vem de longe,
últimos sons de consolo.

(4 de maio de 1940, Casa Fontanka)

(1939)

A antologia poética de Anna Akhmátova foi publicada pela L&PM Pocket em 2009.

Share on Google+Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInPin on Pinterest
11/05/2015
Desenvolvido por Mídia360 © textifique. Todos os direitos reservados.