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A vingança do ícone iconoclasta

Por Nelson de Oliveira – São Paulo-SP
e Sinvaldo Júnior – Uberlândia-MG
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Campos de Carvalho não está mais entre nós, mas está com a bola toda. O último satanista da literatura brasileira (foi assim que ele se definiu certa vez) está virando um ícone contemporâneo. Um ícone iconoclasta. Seus principais romances, depois de muito tempo esquecidos, foram relançados com sucesso em meados dos anos 90, num volume único intitulado Obra Reunida. Agora eles voltaram a ser publicados também separadamente, e dois foram recentemente adaptados para o palco, com igual sucesso. Nada mal para esses livros irreverentes e inquietantes, às vezes ranzinzas e antipáticos — como dizem que seu autor costumava ser —, escritos há mais de quarenta anos.
Vamos aos fatos, aos boatos, às anedotas.
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Trajetória torta
Walter Campos de Carvalho nasceu em plena Guerra Mundial, em 1º de novembro de 1916, em Uberaba, Minas Gerais (se é que Minas Gerais existe mesmo). Terminados os primeiros estudos na cidade natal, veio a São Paulo para cursar a faculdade de Direito e chegou a dividir um quarto de pensão com o conterrâneo Mário Palmério, com quem se desentendeu tempos depois, por razões ideológicas e estéticas. Em 1938 formou-se pela Faculdade São Francisco, tendo trabalhado durante toda a vida como advogado e procurador do estado de São Paulo. Estreou na literatura aos vinte e cinco anos, ou seja, em 1941, com Banda forra, coletânea de ensaios humorísticos publicada às suas custas, elogiada na época por Monteiro Lobato. Apesar disso o livro passou completamente despercebido. Mais de dez anos depois surgiu seu segundo livro, o romance Tribo (1954). Por vontade expressa do autor, que não via neles qualidades salientes, esses dois trabalhos ficaram de fora da Obra reunida, publicada em 1995 pela editora José Olympio, com orelhas de Mário Prata, prefácio de Jorge Amado e introdução de Carlos Felipe Moisés, três admiradores confessos do autor. Desse volume fazem parte apenas os quatro romances que se seguiram ao de 54: A lua vem da Ásia (1956, indicado ao editor José Olympio, para publicação, pelo amigo e escritor Aníbal Machado), Vaca de nariz sutil (1961, escrito em quarenta dias), A chuva imóvel (1963) e O púcaro búlgaro (1964, escrito no tempo recorde de vinte e dois dias).

Também ficaram de fora desse volume o ótimo conto Os trilhos, publicado em 1960, no número 11 da revista Senhor, e a narrativa Espantalho habitado de pássaros, contida na coletânea Os dez mandamentos, de 1965. “Campos de Carvalho é um autor que só será descoberto daqui a trinta anos”, disse Ênio Silveira, e a profecia de fato se realizou. Nos anos seguintes ao da publicação d’O púcaro búlgaro, anos de ditadura militar e de guerrilha cultural, seu temperamento iconoclasta e por vezes arredio, a oposição ao regionalismo de Mário Palmério e Guimarães Rosa, a recusa à militância política cobrada pelos seus pares e as desavenças com os editores levaram Campos de Carvalho a se afastar da literatura.

Apesar disso, no período de 1968 a 1978 colaborou com O Pasquim, enviando da Europa as crônicas humorísticas que compuseram Os anais de Campos de Carvalho, e também trabalhou no jornal O Estado de S. Paulo. A lua vem da Ásia e A chuva imóvel foram traduzidos para o francês e publicados pela editora Albin Michel, respectivamente em 1976 e em 1980. Seu nome foi citado pouquíssimas vezes nos compêndios de literatura brasileira e o autor jamais ganhou um único prêmio literário. Morreu de enfarte aos 82 anos, na Sexta-Feira Santa de 1998, depois de mais de trinta anos sem escrever nem publicar outro livro.

O retorno do maldito
Durante as três décadas em que ficou distante da literatura, Campos de Carvalho também ficou longe da imprensa cultural, que deixou de procurá-lo. Com o lançamento da Obra Reunida, a situação mudou. Fotos, resenhas e entrevistas com esse romancista “louco, brutalista, maldito, anarquista, satanista e surrealista” — essa a maneira como Campos foi tratado por praticamente todos os críticos e jornalistas, tanto pelos que o admiravam quanto pelos que o rejeitavam — foram publicadas em todos os jornais e em todas as revistas importantes.

O gostinho de ser novamente lido depois de tanto tempo fez com que pensasse em retomar seu projeto literário e em dar à luz outro romance de puro nonsense, na linha d’O púcaro búlgaro. Quando perguntado a respeito, o título provisório do livro que estaria escrevendo era sempre adiantado ao interlocutor curioso: primeiro foi Pássaro insano em céus do Antigo Egito, depois Maravilha no país das Alices, depois Maquinação sem máquina, especulação sem espelho, em seguida Mosaico sem Moisés e finalmente De novo no ovo. Títulos do derradeiro romance que Campos de Carvalho, impedido agora por sérios problemas de saúde, jamais pôde escrever.

Neste início de século, o que mais aconteceu? A editora José Olympio publicou as Cartas de viagem e outras crônicas, livrinho cujo título já diz tudo: trata-se da reunião das cartas e das crônicas publicadas no Pasquim nos anos 70. Além disso O púcaro búlgaro e A chuva imóvel foram levados ao teatro, em ótimas adaptações. O que vem por aí? Uma biografia do autor e mais um volume de textos dispersos. Devagar, passo a passo, Campos de Carvalho vai escapando do esquecimento, vai despertando o interesse de mestrandos e doutorandos, mas sem deixar de ser marginal.

Contra a razão
As palavras iniciais d’A lua vem da Ásia, elogio irônico à quebra do discurso racional e às sucessivas metamorfoses de todos os seus narradores pretéritos e futuros, sintetizam à perfeição o procedimento ficcional de Campos de Carvalho: “Aos dezesseis anos matei meu professor de lógica. Invocando a legítima defesa — e qual defesa seria mais legítima? — logrei ser absolvido por cinco votos contra dois e fui morar sob uma ponte do Sena, embora nunca tenha estado em Paris. Deixei crescer a barba em pensamento, comprei um par de óculos para míope e passava as noites espiando o céu estrelado, um cigarro entre os dedos. Chamava-me então Adilson, mas logo mudei para Heitor, depois Ruy Barbo, depois finalmente Astrogildo, que é como me chamo ainda hoje, quando me chamo”.

A lógica da insanidade e o bom-senso do nonsense foram sua marca distintiva: “A loucura em Campos de Carvalho é recurso de composição para a sátira combinada ao lirismo, assim como a escala diminuta de Lilliput, por exemplo, eleva a mil o ridículo das pompas dos governantes e das dissensões políticas. (…) Submetendo a tradição clássica aos ritmos da vanguarda traduzidos também, como não poderia deixar de ser, no compasso brasileiro, Campos de Carvalho alinha-se entre os grandes satiristas que, com indignação genuína, vergastaram a irracionalidade e os abusos com que o homem vem escrevendo sua História”, escreveu a crítica Vilma Arêas.

O que significava o humor para Campos de Carvalho? Às vésperas do lançamento da Obra reunida, Mário Prata foi ao apartamento do autor para entrevistá-lo. Ao chegar, o romancista entregou-lhe um pedaço de papel mal datilografado. Num gesto tipicamente seu, ele já havia feito a entrevista: as perguntas e as respostas. Essa rápida autoentrevista terminava com a seguinte pergunta: “O que significa o humor para você?” E a resposta esclarecedora: “Significa o auge de qualquer ficção ou de qualquer outra arte, no sentido de sublimação do sublime, da efervescência do fervor ou da originalidade do original. É um passo à frente de qualquer vanguarda, que se arrisca ao hermetismo da própria linguagem, ao desconhecido, ao inefável. É o caso de Finnegans wake, por exemplo, ou do mais nebuloso poema de Mallarmé, cujo humor intrínseco sempre nos escapa (tão-me estranho, tão-me intrínseco) por mais que o tentemos desvendar. É o caso também do extenso poema em prosa Hebdomeros, de Giorgio de Chirico, cuja facilidade aparente é apenas a maneira que o autor encontrou para melhor se disfarçar e não se expor ao ridículo, que nele é apenas o humor verdadeiro e sutil. Note-se que não estou sequer tentando comparar-me a esses luminares da literatura de ontem, mas apenas tentando justificar meu total apreço pelo humor como forma de arte, mesmo partindo de uma pequena experiência como O púcaro búlgaro”.

Por falar em humor… Tribo, o primeiro romance de Campos de Carvalho, ainda não foi reeditado. Infelizmente. Mas tudo indica que no futuro próximo esse delicioso lance de irreverência irá se juntar aos quatro últimos, que agora podem ser encontrados separadamente nas livrarias.

A lua delirante
Surgido no contexto do pós-guerra e paralelo ao Existencialismo na Europa, o terceiro romance, A lua vem da Ásia, traz em sua trama caótica e fragmentada as discussões acerca dos traumas e das ansiedades da geração que presenciou os horrores da Segunda Guerra Mundial. Segundo Marcos Siscar, “as conseqüências psicológicas da guerra, nas personagens de Campos de Carvalho, são evidentes (…), os horrores do morticínio gratuito, largamente decantado pelo cinema, estão representados desde o triste e sutil humor d’A lua até o protesto artisticamente previsível d’A chuva.”

A lua vem da Ásia é narrado na primeira pessoa. Os episódios se desenrolam de maneira desordenada, o passado e o presente se alternam, e os fatos fantásticos e absurdos, juntamente com as impressões e as reflexões do próprio narrador, são expostos de maneira aparentemente aleatória. O enredo, não obstante o discernimento crítico do narrador, é fruto de uma mente complexa e atormentada pela loucura, que às vezes se cristaliza na forma da mais pura perplexidade. Trata-se de um romance fragmentário, estilhaçado e descontínuo, reflexo de uma mente e uma alma (a princípio do narrador, e não do autor) igualmente caóticas.

No entendimento de Siscar, o louco nas obras de Campos de Carvalho “não é o psicopata, o não-saudável, mas é justamente aquele que consegue compreender a essência mais íntima da razão humana”, o que muitas vezes redunda em dor e sofrimento, uma vez que a razão humana é a justificativa para várias atitudes não-humanas, ou irracionais, como se percebe nesse trecho, quando o narrador decide denunciar os abusos sofridos: “Pois o que me ocorre, onde me encontro, é apenas isso que me parece de um absurdo inominável: uma minoria armada até os dentes, inclusive com cadeiras elétricas, manda e desmanda em uma maioria de indivíduos realmente individuais…”. O louco, então, é o autoconsciente, em oposição ao são, que, ironicamente, é o grande responsável pela loucura e pelo caos do mundo.

Vida Sexual dos Perus e Cosmogonia são as duas partes em que o livro se divide. Na primeira parte o narrador se encontra (ou julga se encontrar) num campo de concentração que antes imaginara ser um hotel de luxo, no qual permanece por longo tempo, sem saber determinar sua localização: “Não sei dizer se fica na Europa ou na Ásia ou mesmo na Polinésia.” Há a narrativa no presente e há uma série de flashbacks sobre a vida do protagonista anterior à clausura, além de várias reflexões que possibilitam ao leitor o contato imediato com as concepções e as posturas extravagantes de Astrogildo, que é como ele se chama ainda hoje, “quando se chama”. Nova reviravolta. Nem hotel de luxo nem campo de concentração, pois se trata na verdade de um hospício, sendo o narrador um de seus internos.

A segunda parte, Cosmogonia, após o relato da fuga nada espetacular de Astrogildo, relata sua vida em liberdade, bem como suas aventuras fantásticas por vários países. Nesse meio tempo ele exerce inúmeras profissões para sobreviver, inclusive a de estrela de cinema. Mas embora busque sentido em tudo isso, ele logo toma consciência exatamente da falta de sentido da vida: “Mas você, meu irmão, já imaginou o romance sensacional que poderemos escrever um dia sobre esta experiência bélica a que estamos sendo submetidos em pleno tempo de paz, se é que se pode chamar de paz a este estado de angústia permanente e de ódios gratuitos que marca todos os nossos passos, mesmo e sobretudo durante o sono?”

No final do romance, no capítulo O.P.Q.R.S.T.U.V.X.Y.Z., o narrador escreve uma Segunda e definitiva carta ao Times (com vista ao senhor redator da Seção Necrológica), desejando informar a todos sobre o seu suicídio. A força da ironia e do sarcasmo usados contra os seres humanos e a sociedade, o menosprezo explícito pelas normas, a posição crítica em relação à realidade circundante e a perplexidade diante deste mundo em que as relações humanas perderam completamente o sentido, por tudo isso o narrador decide abandoná-lo: “A comunhão dos vivos ainda está por existir e com toda certeza não existirá nunca, dada a pouca cordialidade existente entre os homens, como de resto entre todas as feras de uma mesma espécie.”

As sutilezas do olfato

O título do terceiro romance, Vaca de nariz sutil, importado do quadro homônimo de Jean Dubuffet, pode enganar à primeira vista, uma vez que sugere um humor que em raros momentos se mostra no livro. Aliás, não só o título pode enganar, como as epígrafes (Arrière la choucroute! — Erik Satie; Merde! — André Derain) e as palavras iniciais: “Onde o senhor dorme? No Hotel Terminus. Mas aqui não há nenhum hotel Terminus. É o que o senhor pensa”. Ao contrário do que pode parecer, esse é um romance sombrio, denso, sério.

Vaca de nariz sutil é, como o romance anterior, um relato confessional, mas dessa vez de um ex-combatente de guerra que esteve submerso num universo de morte do qual conseguiu escapar fisicamente (apenas fisicamente) ileso. A temática do livro é a morte. A prosa se reveste agora de tragicidade e, ao mesmo tempo, de um lirismo refinado. Esse lirismo se manifesta especialmente quando o narrador trata de sua paixão por Valquíria, “uma moça de quinze ou vinte anos”, que parece ter alguma deficiência mental. É sobre um túmulo que o ex-combatente possui Valquíria, sendo em seguida surpreendido por uma viúva que o acusa de violentar a filha do zelador em pleno cemitério.

Após receber as honrarias de seu país, o narrador, “ex-combatente e assassino” (segundo suas próprias palavras), ironicamente se transforma (aos olhos da sociedade) num perigoso criminoso. Essa situação acaba instigando nele várias perguntas de fundo moral e ético. Afinal, por ter lutado por seu país e matado outros seres humanos, foi visto como um herói, mas ao se envolver com uma mulher, em cuja relação houve a aceitação mútua, agora é visto como criminoso. Assim, aos poucos se delineia o perfil de nosso anti-herói: questionador, antipatriótico, esquizofrênico, pedófilo e estuprador são algumas de suas características principais, a maioria atribuída pelos outros.

Como em A lua vem da Ásia, o protagonista de Vaca de nariz sutil é totalmente desencantado com as relações sociais, com a comunicação entre os homens. Tanto o primeiro protagonista quanto o segundo refletem, de alguma forma, em maior ou menor grau, um mundo estraçalhado pela guerra. Tanto o narrador do primeiro romance quanto o do segundo são frutos do pós-guerra, desse momento em que se instauraram, ao mesmo tempo, um desencanto e uma esperança débil nos rumos da humanidade. Assim, as duas vozes estão em constante conflito, ora excessivamente amargas, desencantadas e irônicas com o ser humano e a sociedade, porém às vezes desejosas de mudanças. Nesse sentido, é possível enxergar nessas obras um perpétuo assombro ante o caos, a violência e a destruição da civilização e de seus valores.

A chuva subterrânea
O livro seguinte, A chuva imóvel, é certamente o mais denso, lírico e filosófico de Campos de Carvalho. Aqui o prosador exercita, com vigor e brutalidade, sua voz mais raivosa: a voz do sangue e da cólera.

Há controvérsias no que tange à escolha de sua obra-prima: embora a maioria dos leitores e dos críticos considerem A lua vem da Ásia, alguns consideram O púcaro búlgaro, e outros A chuva imóvel. Sendo ou não sua obra-prima, o certo é que o desenlace desse romance é o mais melancólico e claustrofóbico de todos os seus livros: “Levarão séculos para me içar, se é que estão realmente içando, e enquanto dure esta longa ascensão do meu cadáver, mas também do que está dentro dele, eu e não ele — continuarei minuto a minuto a cuspir-lhes do fundo da minha consciência, com esta corda no pescoço mas cuspindo, em sinal de protesto e sobretudo de nojo — por mim e por todos esses que morreram nos meus testículos, que morreram ou que estão morrendo, juntamente comigo morrendo, nesta matança dos inocentes. Mesmo morto continuarei dando meu testemunho de morto. Esta chuva imóvel serei eu que estarei cuspindo.”

O romance não se concentra em temas específicos, mas está calcado na busca existencial da personagem central, André. A narrativa se constrói em diversos episódios transmitidos ainda de forma fragmentária, aos pedaços. A história gira em torno de André e de sua irmã gêmea, Andréa, por quem ele nutre um amor incestuoso. Segundo Carlos Felipe Moisés, A chuva imóvel “se arma em dois planos conjugados: de um lado há a auto-escavação a que o narrador se submete, implacável, à procura de um sentido para a existência; de outro há a observação do mundo exterior, a tentativa tantas vezes repetida quanto frustrada de sintonizar com os que o cercam.” Diante da impossibilidade de se encontrar nesse sufocante mundo de contradições, o protagonista envereda por um caminho sombrio de indagações profundas acerca de si mesmo, encontrando como única saída para sua existência o suicídio.

O púcaro pícaro
Sobre o quinto e último romance de Campos de Carvalho escreveu Antônio Olinto, quando de seu lançamento: “Com O púcaro búlgaro atinge o autor o ponto mais distante em sua caminhada. E finca em nosso chão a bandeira da insatisfação e da insubmissão, de que, durante muito tempo, Oswald de Andrade foi aqui o símbolo. É por isso que Campos de Carvalho isola-se na literatura brasileira e constitui caso sem paralelo. Daí sua posição de vanguarda. E sua solidão.”

O romance pode ser dividido em três partes. A primeira parte compreende os quatro primeiros capítulos: Explicação necessária, Os prolegômenos, Explicação desnecessária e In memorian, que, excetuando-se este último (na verdade, apenas uma nota), têm praticamente o mesmo teor e poderiam ser considerados um único capítulo, caso não tivessem sido fracionados pelo autor. A segunda parte compreende o corpo do romance, redigido em forma de diário, e a terceira parte, menor que as demais, é formada pelo diálogo final entre as três personagens centrais do livro, sob o título A partida (apesar dos pesares).

A ação d’O púcaro búlgaro tem início nos Estados Unidos — para ser mais preciso, nas dependências do Museu Histórico e Geográfico da Filadélfia, onde Hilário, o protagonista, se surpreende com a visão de um púcaro búlgaro —, depois se concentra por inteiro no Rio de Janeiro. Há muita agitação no apartamento de Hilário, nas ruas e avenidas próximas, por conta dos preparativos para a expedição de descoberta da Bulgária. Porém essa movimentação toda, o incessante entra-e-sai de tipos os mais curiosos, resulta sempre no oposto do que se espera: na inércia pura e simples.

Muito esforço é despendido durante meses seguidos na organização de uma expedição que não deslancha, que jamais ganha o mar, que termina (antes de começar) numa rodada de pôquer em pleno ponto de partida. Esse excesso de peripécias em torno da imobilidade — espécie de coito infinito sem orgasmo — é, ao que tudo indica, a melhor representação possível do movimento perpétuo do mundo moderno, em que tudo se encaminha mecânica e aceleradamente para determinados fins, que, de tão selvagens, jamais justificam o esforço.

As ações e reações de Hilário são tempestuosas, passionais, instintivas, mas não levam a nada: ao descobrir o púcaro búlgaro no Museu Geográfico ele retorna imediatamente ao Brasil, deixando no hotel a mulher sem dinheiro sequer para custear as despesas. Mas logo em seguida esquece-se do que pretendia fazer; põe-se a redigir um diário sem saber exatamente com que propósito; deambula pela cidade, angustiado sabe-se lá com o quê (é claro que com a descoberta recalcada, apagada da memória desde a sua chegada ao Brasil); enche o apartamento de estranhos, todos eles, na sua concepção, futuros expedicionários; promove debates e seminários sobre a existência ou não da Bulgária; cria o MSPDIDRBOPMDB (Movimento Subterrâneo Pró-Descoberta ou Invenção Definitiva do Reino da Bulgária ou Pelo Menos dos Búlgaros); adia várias vezes a partida e por fim desiste de vez de se lançar à empreitada.

A trama do romance é dominada por dois interlocutores: Hilário e Radamés Stepanovicinsky, o professor de bulgarologia. São eles que comandam os demais, propõem e organizam, da maneira as mais estapafúrdias, a expedição à Bulgária. As outras personagens — Rosa, o velho nonagenário e a sua neta, Pernacchio, Ivo que viu a uva, Expedito e o psicanalista — ficam sempre em segundo plano, pouco se destacando do fundo narrativo, pouco se destacando inclusive uns dos outros. Todos esses coadjuvantes são representados como se fossem meros objetos, sem profundidade psicológica e sem nenhum traço de caráter: eles estão aí para servir de escada, para que Hilário e Radamés tenham onde se apoiar. São como marionetes, mas nesse ponto assemelham-se todos, em maior ou menor grau: os dois protagonistas e os coadjuvantes.
Hilário descreve a si mesmo e aos outros sempre de fora: apreende apenas o seu comportamento exterior e lhes reproduz os diálogos, jamais penetrando na sua alma. Mesmo quando procura tratar de sua vida íntima percebemos que o narrador nada tem a dizer sobre ela, ou porque ele não a conhece ou porque ela simplesmente não existe. São todos títeres, o narrador, Radamés e os demais, pois não têm dimensão interior, sendo que as situações cômicas ganham mais intensidade graças a esse fato. A representação estilizada do mundo e das pessoas torna ambos estranhos e impenetráveis: “Os seres humanos tendem a tornar-se objetos sem alma entre objetos sem alma”, escreveu Anatol Rosenfeld.

Em contrapartida, esse recurso, empregado para deformar a perspectiva do narrador tradicional, também reveste as pessoas e a realidade com certo verniz mítico. O tempo da ficção deixa de ser o tempo cronológico, específico, em que se sucedem os fatos, e passa a ser o tempo ameaçador dos contos de fada, dos relatos grotescos e fantásticos. A forma objetiva de narrar, em tudo avessa à forma subjetiva do romance psicológico, privilegia a ação e a descrição, aproximando assim esse romance de Campos de Carvalho das epopéias homéricas.
O púcaro búlgaro é a única epopéia possível nos tempos modernos, porque é a anti-epopéia das expedições exploratórias. Enquanto na Ilíada e na Odisséia temos a consumação da conquista por parte da aristocracia grega, aqui temos o fracasso de semelhante empreitada conduzida pelos anti-heróis da classe média tupiniquim. Lá o tom épico; aqui o seu contrário, o tom satírico — o ponto comum a ambos: o choque, o susto, o espanto, o estranhamento que os seres humanos e os objetos do cotidiano provocam, como se estivessem sendo vistos e nomeados pela primeira vez. Choque provocado por tudo o que é mais corriqueiro: nas epopéias homéricas o mundo dos deuses, sua rotina pouco rotineira e sua ética particular; n’O púcaro búlgaro o mundo dos homens, cada púcaro e cada búlgaro podendo existir ou não, cada membro do corpo podendo ser outra coisa, como a mão de Radamés que é, para todos os efeitos, seu gato de estimação.

* Com a colaboração de Josiane Gonzaga.

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28/03/2015
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