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Corpo, espaço e escrita: uma entrevista com Ryane Leão

Não lembro ao certo quais os caminhos me levaram à página de Ryane Leão no Facebook, Onde Jazz Meu Coração. Gostaria muito de poder lembrar, mas a vida é tão cheia de ruas, lugares e pessoas que nem a memória mais potente seria capaz de registrar tudo (E, em alguns casos, isso é muito bom! Seria terrível se lembrar de cada coração partido, por exemplo.)

Não lembro como cheguei, mas lembro o motivo de ter ficado. Ryane tem uma escrita pungente e corta porque a gente vê refletido ali alguns dos nossos pedaços doloridos de existência, alguns arrancados há tempos, outros que ainda latejam e resistem a se tornar cicatrizes. Carne viva que somos, nos vemos nas palavras de Ryane, quase sempre em letras minúsculas, e nos sentimos como se fôssemos uma delas.

Nos encontramos pessoalmente uma única vez, ao lado de Letícia Liñeira, amiga que fiz nos comentários da página – eu fazia de propósito: escrevia o melhor que conseguia para chamar a atenção da escritora. Como eu não conseguia ser interessante por conta própria, peguei emprestadas as palavras de Ana Cristina César:

“ESTE LIVRO
 
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz
Do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two 
total, tilintar de verdade que você seduz, charmeur 
volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.”

Também não lembro ao certo em que lugar de São Paulo estávamos, mas acho que foi perto da Roosevelt, único lugar de São Paulo do qual sempre lembro o nome, por ter lido algumas vezes em textos da escritora Clara Averbuck.

Camila, a personagem do livro “Máquina de Pinball”, de Clara Averbuck, também foi importante para Ryane: o livro, “descoberto ao acaso em uma vinheta de tv”, foi fundamental para que Ryane decidisse a escrever mais e se escrever de uma nova forma, procurar sua própria voz, largar a faculdade e viver de palavra.

Na entrevista abaixo, ela fala sobre seu processo, sobre a importância de São Paulo na sua escrita, a relação entre sua escrita e fotografia e sobre seus muitos planos para 2015.

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Equipe Textifique: Tudo aquilo que a gente faz tem um começo. Às vezes, a gente não consegue delimitar muito bem, principalmente quando fala de “como começou a escrever”. Mas você consegue identificar no seu percurso qual foi o momento em que você reconheceu que aquilo que você produzia era literatura? E desse momento ao momento em que você decidiu viver de escrita: como foi o processo? Nesse período, quais eram as leituras que você fazia?
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Ryane Leão: eu mudei pra são paulo pra fazer faculdade. o primeiro ano até que foi, mesmo insatisfeita. um dia eu comprei o livro da clara averbuck (descoberto ao acaso numa vinheta de tv) e tudo mudou. a camila dela me mudou. comecei a ser eu, comecei a escrever muito mais (sempre escrevi), larguei a usp, comecei a trabalhar pra pagar o aluguel e o que me sobrava de tempo virava produção. eu comecei a enxergar como literatura quando algumas pessoas me enxergaram também. o antigo blog (ownblues.blogspot.com), um lugar onde eu jogava tudo e mucho más, começou a ter bastante leitores, o que me moveu e me incentivou quando eu decidi lançar a página do onde jazz (facebook.com/ondejazzmeucoracao).
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Equipe Textifique: Na sua escrita, nós percebemos a presença de São Paulo quase como uma personagem. Qual a importância que a cidade teve para o desenvolvimento da sua escrita?

Ryane Leão: são paulo me deu combustível, prédios velhos, muros pichados, copos lotados, sarjeta, amores, desamores, indas e vindas, um frio da porra que eu nunca tinha sentido em cuiabá, um coração que jamais esfriou, amigos que ficaram e outros que eu quis que se afastassem, esquinas com poesia, fumaça, barulho, postes e semáforos pra eu colar meus lambes, noite vazias, dias cheios, noites cheias, dias vazios, ressacas horrendas, bebedeiras sensacionais, feminismo, luta, garra, são paulo me colocou entre aspas – como não influenciar na minha escrita, vê?

ps: a questão das aspas é que eu vi escrito num muro “tudo posso entre aspas” e eu tatuei uma aspa no pulso direito e uma aspa no esquerdo. posso tudo, sempre pude. a cidade está presente até na pele, até na vontade de ser mais.

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 Equipe Textifique: Em diálogo com sua escrita, você costuma relacionar fotografias tiradas em seu apartamento e de si mesma, com frases de seus textos escritas em seu corpo. Como foi que surgiu a ideia de vincular esses dois signos, tão íntimos, o lugar onde mora e o seu próprio corpo, com aquilo que você escreve?
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Ryane Leão: a ideia das fotos surgiu desde o início do onde jazz. pra ser honesta, tive a ideia e foi isso, fotógrafos e fotógrafas (geralmente amigos, agora quem quiser colaborar) entraram na minha, toparam fazer e deu no que deu. a resposta foi massa, tenho leitores fodas. eu considero a escrita no corpo empoderadora (pra mim e pra quem lê), uma leitura diferente do texto, mais próxima, mais cravada na pele, mais cravada no peito. e mais que isso, é uma proposta feminista, da aceitação do próprio corpo e o corpo como refúgio do que sentimos – sem culpa, sem peso, sem pressão. aliás, eu comecei a me aceitar depois que comecei a tirar as fotos.
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Equipe Textifique:  Você fez o lançamento da sua escrita por meio de uma página no Facebook em vez de buscar o caminho dos prêmios e concursos literários e da publicação em meios físicos. Por que você optou por esse caminho? Você sente que há ainda algum preconceito em relação ao fato de sua produção ser em uma rede social? 
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Ryane Leão: não acho que exista preconceito quanto a plataforma (online) que publico. algumas pessoas questionam isso, né? “é escritora e não tem livro”. caguei. sempre caguei pra quem dizia isso. eu já tenho quase oito anos (acho que mais) de publicações em blogs e na página, quédizê, não existe isso de mais ou menos escritora, existem pessoas cagando regra, pra variar. anyway, eu quero o livro físico faz tempo, nunca disse que ele não viria, mas só nesse ano tudo se ajeitou. a casa, cabeça, a organização do projeto de financiamento coletivo. de editoras sempre fugi, admito. preciso pagar meu aluguel e sempre achei o esquema muito injusto. o crowdfunding surgiu como uma LUZ. hahaha – uma luz trabalhosa, viu. desse ano são três os projetos para livro físico:

– financiamento coletivo pelo catarse que lanço em setembro, uma tiragem de 1000 livros, com orelha da clara averbuck e ilustrações da ariane freitas;

– meu conto “fragilidades” numa antologia dos 50 melhores autores nos 5 anos do Jornal Relevo;

– meu segundo livro (se o financiamento rolar) por uma editora independente de BH.

FINGERS CROSSED! hahaha

Equipe Textifique: Algo que sempre gosto de pedir para as pessoas com quem converso é que me indiquem cinco músicas preferidas. Você pode me dizer o que tem tocado seus ouvidos recentemente?
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Ryane Leão: primeiro, não sei eleger favoritas, acho injusto com as outras.
hoje eu tava num dia soul, hip hop e rap (tudo junto e misturado?) feito por mulheres. tássia reis, flora matos, karol conká.

também ouvi rodrigo ogi e aláfia. essa galera inspira MUITO. me arrepia.

durante a semana ouvi: chico science, gilberto gil, mombojó, etc.

tô na pira de música brasileira, nas pausas ouvi frank turner, best coast, pixies, strokes, rolling stones e coisas que escuto sempre.
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 * Esta entrevista foi gerida por Wigvan Pereira.
** Inícios de parágrafos/frases e nomes próprios mantidos em caixa baixa a pedido da entrevistada.
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