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Entrevista com Eric Novello

Na infância, Eric Novello tinha especial apreço por dinossauros e reações químicas. Aos dezesseis a literatura, como ele mesmo diz, “começou a reivindicar espaço”. Foi assim que ele desviou das ciências biomédicas e se aventurou, parafraseando Drummond, a penetrar surdamente no reino das palavras em busca das histórias que estão lá, à espera de serem escritas. Ao buscar as palavras, ele acabou encontrando um lado seu que talvez sem elas nunca tivesse vindo à tona.

O primeiro livro foi publicado em 2004, Dante, o guardião (Editora Novo Século).  Depois do segundo livro, Histórias da noite carioca (Ed. Lamparina), publicado em 2005, um hiato de cinco anos que o permitiu estudar cinema. Só em 2010 publicou um novo livro, Neon Azul (Editora Draco), que apesar de ter um inferninho como cenário principal, o autor o define como “careta na abordagem da sexualidade”.  A Sombra do Sol, em 2012, é um marco na produção do autor por abordar a sexualidade de forma mais livre, partindo da ótica de um garoto de programas. Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues, de 2014, oferece ao leitor personagens que sequer colocam a liberdade sexual em causa, de tão livre é a expressão da sexualidade, sem o peso, inclusive, de um gênero definido. É com esse livro que Eric também pode se apresentar como compositor, compondo a letra da música que é cantada na ficção por uma de suas personagens e, na vida fora da ficção, cantada pela sua irmã, a cantora Cássia Novello, com quem trabalha atualmente no projeto Noturna.

Eric Novello nos deu uma entrevista e fala sobre seu processo de descoberta como autor, como sua vida e obra estão conectadas por esse processo, sobre a intencionalidade política de sua criação e sobre a representação de personagens LGBTT na literatura brasileira contemporânea.

Equipe TeXtifique: Você sempre pensou em ser escritor? Ou qual a importância a escrita teve na sua vida nos primeiros anos?

Eric Novello: Acho que algo muito forte em mim é a escrita, realmente. Engraçado que não tive consciência disso desde novo. Como gostava muito de animais, dinossauros (que criança não gosta?), reações químicas, meus pais e eu sempre vimos nas ciências biomédicas um caminho profissional. Mas perto dos 16-17, o lado autor começou a surtar e reivindicar seu espaço. E mudou o rumo todo da minha vida.

Equipe TeXtifique: Você já escrevia nessa época?

Eric Novello: Eu desenhava. Criava os personagens, fazia algumas tirinhas com eles. Levei um tempo até tentar outras narrativas. Comecei uma história (bem ruim) em um caderno, criei um site para colocar contos (também bem ruins). Entender que não haveria mágica, que eu teria que me dedicar, mudar meus horários, aprender novas ferramentas para me tornar escritor foi algo que demorou. A escrita é muito um processo de autodescoberta, e eu estava travado comigo mesmo.

Equipe TeXtifique: Você falou de escrita como autodescoberta e eu me lembramos do termo “escrita de si”. No período medieval, em alguns mosteiros, os monges se comunicavam com seus “professores” por meio de cartas autobiográficas e, por meio de cartas, os professores educavam pensamentos e atitudes dos alunos. Ou seja, a escrita era associada tanto à autodescoberta quanto à mudança de atitudes a partir dessa autodescoberta. O produto da atividade de escrever era tanto o texto quanto o sujeito novo que surgia a partir dele. Você reconhece algum nível desse processo em si? Digo, você se transforma como pessoa a cada texto? E como isso reflete nos próximos textos?

Eric Novello: No começo foi o inverso, praticamente. Meu processo de autodescoberta fora da literatura começou a deixar evidente o quanto eu estava me limitando nos textos com medo do que as pessoas, principalmente família, pudesse pensar. A partir do momento em que rompi essa barreira, os dois lados começaram a se alimentar de maneira saudável. Romper meus limites me permitiu romper os limites dos personagens e, com isso, torná-los mais reais, mais complexos. Hoje, não há como mergulhar no tipo de texto que eu escrevo sem sair diferente no final. Algo que não aconteceu nos dois primeiros livros. A vantagem de ter coragem de encarar seus próprios demônios na literatura é ir ficando mais cascudo de um texto para outro, e quanto mais cascudo, mais profundos os mergulhos podem ser.

Equipe TeXtifique: E quando você teve coragem de mostrar os textos sem se preocupar com o que as pessoas pensavam? Como foi que você olhou para um texto e pensou: “olha só, isso pode ser publicado”? E tem valido a pena deixar o medo na gaveta (e tirar o texto de lá)?

Eric Novello: Depois do meu segundo livro, me afastei do mundo literário para estudar cinema. Nesses cinco anos de intervalo, perdi o medo de mim mesmo, passei a me conhecer melhor. Resolvi me expor mais nos meus textos, inclusive no meu site, com uma série que mais tarde virou o livro A Sombra no Sol. O protagonista é um garoto de programa e lida com homens e mulheres de todos os tipos. Nesse meio tempo ainda recebia uns emails aborrecidos do meu pai, uns puxões de orelha da minha mãe, mas com o tempo eles acabaram entendendo que o filho deles era um autor de temática adulta, e que não iria escrever sobre anjos fofinhos abençoando crianças de cabelos encaracolados no parquinho da escola. O Neon Azul, que foi meu retorno ao mercado, embora seja um livro careta na abordagem da sexualidade dos personagens, se passa em um inferninho no centro do Rio de Janeiro. Mas ele ainda foi bastante desafiador. Acho que o A Sombra no Sol, que veio a seguir, e isso, veja só, dez anos depois do meu primeiro livro publicado, é que foi o meu “ei, isso é bom, e é assim que ele deve ser publicado, doa a quem doer”.

Equipe TeXtifique: Como assim “careta na abordagem da sexualidade”? Em relação ao Exorcismo, por exemplo, quais as maiores diferenças nas caracterizações dos personagens? E por falar em sexualidade, há personagens LGBTT na sua literatura? Como você vê a representação das sexualidades diferentes na literatura brasileira?

Eric Novello: Neon Azul era careta na abordagem da sexualidade… porque a diversidade sexual não se fazia presente. Embora o livro se passe em um inferninho e tenha prostitutas dos mais variados perfis como personagens, o sexo é bem pontual na história, e aparecia apenas no último capítulo. Reler o livro um tempo depois me deixou com a vontade de um retorno a ele, onde essa diversidade possa se fazer presente.

Exorcismos, Amores e Uma Dose de Blues e A Sombra no Sol foram meus primeiros livros a trabalhar isso de forma consciente. Como o autor havia perdido suas amarras, os personagens puderam perdê-las também. No caso de A Sombra no Sol, como o protagonista é um garoto de programa que faz seu trajeto desde as ruas até festas de luxo, o sexo se torna a peça central. Há um vazio com o qual ele convive bem, e quando esse vazio começa a ser ameaçado, mesmo estando em um momento de ascensão profissional, ele começa a se desestabilizar.

A brincadeira no EADB é bem diferente. Os personagens não existem sob o peso moralista das religiões abraâmicas. Então a liberdade sexual é algo natural para eles. Tão natural que nem se dão conta dessa liberdade. Dentro dessa ambientação, acabo levantando outras questões como: pelo que nos apaixonamos no fim das contas? Pelo corpo? Pela personalidade? Por algo que a mente racional não identifica claramente? Essa é uma das vantagens da fantasia! Ter personagens que mudam de forma, que não tem um sexo definido, nos abre um mundo de possibilidades.

A literatura brasileira ainda é, em sua maioria, formada por histórias sobre homens heteros cis. Autoras mulheres vêm conseguindo um espaço maior de dez-cinco anos para cá. E a representação LGBT é muito, muito fraca. Há projetos pontuais tentando retratar de forma mais coerente a realidade, autores que tentam romper a invisibilidade. Mas há um longo caminho pela frente.

Equipe TeXtifique: O próprio gênero de EADB parece comportar esse tipo de subversão, certo? Ao falar de visibilidade para personagens que escapem do binarismo e da hetero-cis-sexualidade é uma atitude política dentro de uma história da literatura que tem privilegiado os personagens homens-brancos-cis-heterossexuais. Então, pergunto: esse vínculo que sua obra faz entre literatura e política foi intencional?

Eric Novello: Sem querer cair no lugar comum, toda arte é política. Não tomar partido é, hoje mais do que nunca, tomar partido. A história do EADB se passa em Libertà, a cidade dos libertários e libertinos, e isso se desdobra nas linhas e entrelinhas da história. A questão nunca assume um lugar acima da trama, mas está lá, por todo o texto, em tempo integral.

Independente do gênero que eu escolha trabalhar no futuro, eu sou um autor contemporâneo e represento um mundo em processo de transformação. Tanto no papel quanto no meu dia a dia, na minha vida pessoal. Felizmente, quando olho para o lado, não é mais um mundo branco-cis-hetero que eu vejo. Então, mesmo que o mundo demore a mudar, pelo menos na minha literatura a diversidade vencerá a invisibilidade.

* Esta entrevista foi gerida por Wigvan Pereira.

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