Textifique

Breve entrevista com Wigvan Pereira

É diferente, mas é o nome dele: Wigvan – leitor de mundos, pessoas e livros. Fazedor de coisas abstratas. Imaginador de gentes não-nascidas. Desenhador de palavras já inventadas. E é por conta dessas imaginações, invenções, desenhos que nós, da equipe Textifique, fazemos essa breve entrevista com o escritor Wigvan.

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Equipe Textifique: No seu ebook “Uma Maria”* há uma série de textos. Qual critério utilizou para agrupá-los em um mesmo volume?

Wigvan Pereira: Agrupar textos em uma coletânea abriga um duplo desafio: corremos o risco de escolher textos que não dialogam entre si ou o risco de escolher textos que repetem uma ideia.

Eu poderia, por exemplo, colocar alguns contos mais eróticos, outros mais humorísticos ou mais doloridos e teríamos assim uma coletânea diversificada.

Só que eu preferi escolher textos que dialogassem, de alguma forma, com a sensibilidade dos dois textos mais elaborados, “Uma Maria” e “Um João”.

Deixei muitos de fora porque repetiam a forma e a seleção de palavras – eu escrevi esses textos ao longo de 4 anos, então palavras que apareceram em momentos diferentes e por meio de sentimentos diferentes, parecem, quando colocadas lado a lado, contar sobre a mesma coisa. É mais fácil não repetir palavras e construções frasais em textos escritos em curto espaço de tempo (eu, pelo menos, acho).

Alguns contos não sobreviveram à seleção. O critério foi o seguinte: pensei nos dois contos que julgava serem mais elaborados, “Uma Maria” e “Um João” e tentei escolher textos que dessem brilho a eles, que ressaltassem suas qualidades por esse difícil equilíbrio entre diferença e semelhança. Pensava como se estivesse organizando uma exposição no céu: escolhi as estrelas que deixavam a lua mais evidente. Uma estrela brilhante demais, pela proximidade, como o Sol, faria com que a lua passasse despercebida. E não queremos isso.

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Equipe Textifique: O que costuma servir de inspiração à sua escrita? O que leva você a escrever?

Wigvan Pereira: Eu escrevo aquilo que não me cabe, aquilo que me sobra. Sou muito atento a tudo o que me cerca, as histórias das pessoas, seus gestos, suas manias, a forma como elaboram suas narrativas a respeito de si mesmas. Também sou muito atento aos espaços, uma rua que desmorona, uma árvore torta, uma florzinha que entra pela janela nas costas de um vento… Daí vou guardando tudo isso em lugares preciosos da minha memória. De repente, aquilo tudo explode em forma de palavra. E eu escrevo porque falar não serve. Quando falo, minha voz é a minha voz de sempre, o mesmo sotaque, a gagueira que eu tento disfarçar (nem sempre com êxito), as letras que eu troco quando não planejei a conversa…

Quando eu escrevo, não. A voz escrita pode ter vários sotaques, vários trajetos, várias tonalidades, várias cores. E isso serve melhor à força das histórias que existem dentro de mim e quase me arrebentam.

Eu escrevo porque a vida me emociona. E emociona tanto que não conseguiria expressar por meio do meu corpo e da minha voz. Preciso fingir que sou outros.

 

Equipe Textifique: Você pensa que o fato de escrever reflete na tua forma de ver o mundo? Pois tu falou do inverso, de ser tocado pela vida e ser levado à escrita, mas o ato de escrever devolve algo na tua forma de se relacionar com o que te cerca?

Wigvan Pereira: Eu acho que tudo aquilo que a gente faz tem impacto na visão que a gente faz das coisas. Por exemplo, como eu gosto de plantar, não passo por uma semente impunemente. Quero saber que árvore existe dentro dela, se exige muito espaço, se precisa de muita ou pouca água. Da mesma forma, não passo por uma planta já crescida sem observar se ela está bem cuidada.

A gente vai se construindo por meio dessas pequenas ações e a cada passo pra dentro de nós mesmos, nossa relação com aquilo que está fora se modifica, também.

A escrita, para mim, é um jeito de estudar sementes, preparar o chão, escolher a dose certa de água. O que nasce é sempre uma nova possibilidade de ser eu mesmo.

Acho que vou sofisticando meu paladar do mundo quanto mais escrevo. Vou aprendendo o quanto de alma eu preciso para dissolver alguns amargos.

Uma coisa importante que a leitura e, depois, a escrita me deram foi isso de perceber a beleza daquilo que é o avesso de mim. A leitura e a escrita são ótimos espaços para se encontrar a alteridade, até mesmo aquela que nos parece indigesta.

Quando se narra uma história, qualquer humano parece abraçável.

 

Equipe Textifique: Quando você começa a escrever, já sabe como o texto vai terminar, qual será a totalidade do trajeto ou a escrita vai descortinando o caminho? Ainda sobre isso, tu acha que a escrita ajuda a dar forma ao pensamento?

Wigvan Pereira: Eu sempre começo escrever em torno de algum personagem ou em torno de alguma imagem.

Desde ontem estou sendo perseguido por uma imagem, por exemplo, e não consigo dar cabo dela. Anoto, um dia a história aparece.

Aconteceu com um texto chamado “tatu”. Fui perseguido por uma frase. “Eu não aconteço a ninguém”. Mas não soube o que fazer com ela até que pensei, um dia, na história de uma moça que fazia tatuagens para esconder sua personalidade, para dar pistas erradas de si mesma. No meio do texto eu percebi que aquela frase que me assaltara encaixava completamente ali.

Escrever, para mim, é como desenhar um mapa. Há contornos, relevos, planícies, rios. Tudo isso foi planejado e está posto. Gosto de saber até se a personagem gosta de andar descalça, se prefere sorvete de pistache ou de morango, se ouve jazz ou samba, se ri de filme idiota ou se viu O poderoso Chefão 3 milhões de vezes e se chorou com a morte da personagem da Sofia Coppola.

Tudo isso parece irrelevante, mas preciso dessas irrelevâncias para desenhar contornos.

O que não é previsto são os abalos sísmicos, as tempestades, os furacões. Eles ocorrem contra a minha vontade. É claro que eu posso impedir que alguma ação surja, mas se eu começo a controlar demais aquilo que vou pensando, a escrita perde o que tem de gozo, se torna bula, recado, notícia. Perde a leveza.

Definiria meu processo de escrita, digamos assim, com o título de uma obra do Paul Klee: “livre, mas rigorosamente contido”.

Mas eu vivencio a história antes de colocar no papel. Não sei se isso pode ser chamado de planejamento. (Mas ainda não estou preparado para dizer como “eu vivencio” aquilo que quero escrever, ainda preciso de emprego, não quero correr o risco de me acharem muito louco.)

Sobre a escrita dar forma ao pensamento… Bem, acho que são duas coisas distintas, escrita e pensamento. Não acho que a escrita dê forma ao pensamento – mas posso estar enganado, nunca pensei demoradamente sobre isso. Me parece mais que o pensamento dá forma à escrita – porque não existe escrita sem pensamento, mas pode haver muito bem pensamentos não-escritos. Aliás, a maior parte dos pensamentos não sucumbe à linguagem. Palavras não são tão onipotentes quanto costumamos julgar. Palavras são envelopes que guardam os pensamentos, já que não podem traduzi-los, nem domesticá-los. Diante de uma palavra, principalmente de uma palavra escrita, não podemos ter certeza de que ela corresponde àquilo que pensamos que o outro quis dizer. Talvez os telepatas consigam, mas eu não sou telepata.

Além disso, acho que essa ideia de que a escrita ajuda a dar forma ao pensamento é excludente e violenta contra as pessoas que não têm acesso à escrita, que não aprenderam a tecnologia do traço alfabético. Parece estar embutido, nas entrelinhas, que as pessoas que não sabem escrever não podem dar forma ao pensamento. E eu, como educador, não posso fechar com isso, né. Isso seria contra o meu trabalho diário com a educação.

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*Mais informações sobre o e-book “Uma Maria”, de Wigvan, é só dar uma clicadinha AQUI.

**Esta entrevista foi gerida por Michel Domenech.

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22/05/2015
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