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Literatura estrangeira é muito melhor

Por Rogers Silva

Um dia visite as listas dos livros mais vendidos de qualquer revista brasileira. Não se contente em ver a lista do mês corrente. Se possível, pegue as listas mensais dos mais vendidos de todo o ano de 2014 no Brasil. Se tiver paciência, aproveite e pesquise as listas de 2013. E de 2012, 2011… Perceberá nelas algo estranho: em todas, entre os mais vendidos está uma maioria esmagadora de livros estrangeiros. O que explica esse fenômeno?

Como este texto não tem a pretensão de ser científico nem este blogue é uma revista acadêmica que me exige os objetivos, a justificativa, a descrição metodológica e dados empíricos para comprovar meus argumentos, discorrer sobre o assunto fica mais fácil, uma vez que parte de uma opinião pessoal baseada em impressões, mas também em fatos. Assim, não julgue o texto pelo que ele não é nem se propôs a ser – um texto científico.

Este texto é uma introdução a um (outro) texto a ser publicado aqui, ainda sem data definida, mas com nome definido: Literatura é uma merda. Não vem ao caso discorrer sobre ele, mas nele discuto – além de muito do que coloco a seguir – sobre a literatura de entretenimento, a leitura no Brasil e opino sobre os possíveis motivos de se vender menos (em quantidade de livros, e não necessariamente em número de autores) literatura nacional do que literatura estrangeira. No texto Literatura é uma merda listo as possíveis causas que justificam esse fato.

A mais óbvia e, em contrapartida, mais arraigada e de difícil mudança é cultural – o brasileiro tem um fetiche histórico e “inexplicável” por coisas de fora, sobretudo da Europa (ocidental) e dos EUA. Alguns chamam isso de síndrome de vira-lata. Outros, de colonização. Alguns, de alienação. E muitos, de burrice mesmo. Ou seja, sentimos prazer em admirar, idolatrar, ouvir conselhos e teorias sobre nós mesmos, e enriquecer gringos. Já admiramos Portugal, França, Inglaterra, EUA, mas sempre sentimos uma dificuldade enorme de admirarmos nós mesmos (situação que parece estar mudando um pouco nos últimos anos…).

Para nós, eles são melhores do que nós: o metal nórdico é melhor do que o metal mineiro; Fernando Pessoa é melhor do que Drummond; filmes imbecis de Hollywood são melhores do que ótimos filmes brasileiros; o futebol espanhol é duzentas mil vezes melhor do que o futebol brasileiro; Dan Brown é melhor do que André Vianco etc. Para alguns inclusive (veja o absurdo a que o complexo chega…), Maradona é melhor do que Pelé.

Para nós, mesmo sem conhecimento de causa (alguns não conhecem o metal mineiro, nem Drummond, nem o cinema nacional, nem profundamente o futebol brasileiro, nem a literatura de André Vianco, nem as jogadas geniais de Pelé), eles são melhores do que nós. Sem dúvida. Se um gringo falou, deve ser verdade (Harold Bloom falou que entre os 100 maiores gênios da literatura universal, um tantão era estadunidense e um, só unzinho era brasileiro – e nós acreditamos). Sentimos devoção por gringos. Seres iluminados e superiores, impõem o que vamos pensar, falar, fazer e gostar. E gostamos. Somos extremamente obedientes. Para nós, os brasileiros são todos um bando de ladrões. Os políticos brasileiros, corruptos. No Brasil nada funciona. Não só a literatura, mas também o Brasil é uma merda.

Paradoxalmente, nos incomodamos quando algum gringo fala a verdade sobre nós, sobretudo quando essa verdade toca em nossa ferida, quando a verdade é um defeito evidente (vide Sylvester Stallone quando disse que qualquer um pode vir ao Brasil e explodir tudo e mesmo assim receberia um ‘Obrigado’ e um macaquinho de presente (essa parte do macaco é mentira!)). Nossa auto-estima é inexistente. Nossa capacidade de autocrítica é abaixo de zero. Enquanto isso, porque alguém falou e recomendou e impôs, compramos livros estrangeiros…

É um argumento/discurso simplista, claro está, mas a meu ver esse traço cultural é a base primeira do problema: editores acreditam que a literatura estrangeira vende mais e, em conseqüência, a chance de lucrar com ela é maior; os publicitários aceitam essa verdade e trabalham em prol do produto estrangeiro; os consumidores (influenciados e impressionados pela propaganda de tal livro de tal autor estrangeiro, que nos EUA vendeu trocentos milhões de exemplares), por sua vez, compram os livros estrangeiros, muito melhores do que os nacionais, é óbvio. A ordem não necessariamente é essa (editores, publicitários e consumidores), nem muito menos os atores são apenas esses.

Os editores, por acreditarem que o autor Fulano dos EUA venderá muito mais, pagam R$ 200.000 pelo direito autoral de determinada obra ao invés de investirem R$ 10.000 em 20 autores nacionais para cada qual publicar 1.000, 2.000 exemplares de sua obra. É uma atitude condenável? Financeiramente falando, de forma alguma. Ao contrário, já que buscam o lucro, é o mais sensato a se fazer. Os outros profissionais do ramo, que não têm muito a ver com essa história toda, trabalham arduamente para aquele autor estrangeiro, porque aquele autor estrangeiro é quem paga o seu salário. Afinal, é aquele autor estrangeiro que é comprado/consumido pela grande maioria pensante da população leitora do Brasil. Sim, com muitos itálicos. Voltando aos editores, é possível que esses mesmos que gastam R$ 200.000 pelo direito de um livro não gastem R$ 1.000 para pagar um tradutor (brasileiro) por uma tradução (de qualidade). Até porque alguns tradutores fariam o serviço por R$ 500…

Por outro lado e a contribuir indiretamente com a situação, parte da intelligentsia, dos professores, dos pesquisadores especialistas, dos críticos brasileiros faz sua parte, prestando um desserviço à literatura brasileira, ao não aceitar qualquer coisa que não seja clássico ou original, na sua concepção de originalidade. Não valorizam a importância da literatura brasileira de entretenimento, mesmo que de qualidade. Apedrejam autores que se propõem a tão-somente entreter o leitor. Inteligentíssimos, eles não aceitam obras que não sejam originalíssimas, ou que posem como tal, ou que a partir delas não se possa explicar a cultura e a história brasileiras. Para essa tribo (parte da intelligentsia brasileira), ou você é um clássico ou você é um gênio ou você é, no mínimo, vanguardista. Fora disso, você, caro escritor, é uma merda.

É difícil saber, após essas reflexões, o que é causa e conseqüência nessa história toda – se a causa das editoras não publicarem autores nacionais é o fato dos leitores brasileiros não lerem a leitura do próprio país; se os brasileiros não leem a literatura brasileira porque o que sempre está em destaque e chamando a atenção é a literatura estrangeira; se a literatura de qualidade brasileira é mais do que os leitores brasileiros exigem e querem para se entreter; se, ao contrário, a literatura brasileira de entretenimento é de qualidade baixa, aquém da literatura estrangeira, e por isso preterida pelos leitores brasileiros; etc. etc. A fobia é de quem: das editoras, dos leitores, da intelligentsia? Ou de todos? E fobia a quê: aos escritores nacionais, à literatura nacional, à literatura de entretenimento?

Nossa, que complexo…

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02/06/2015
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