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Literatura não vende

Por Rogers Silva

Numa entrevista d’O BULE, realizada com a escritora Ana Paula Maia, fiz-lhe (e ao leitor) os seguintes questionamentos: Todo aspirante a escritor quer publicar e vender, se não muito, pelo menos um número razoável de exemplares. Mas, paradoxalmente, percebo que pouquíssimos aspirantes a escritor ou escritores iniciantes valorizam os seus pares (outros aspirantes, ou iniciantes, ou escritores desconhecidos). Literatura não vende porque nem os próprios indivíduos que sonham em viver dela compram livros. Embora triste, essa é a realidade. Para você, como conscientizar, primeiramente, os próprios literatos que literatura é mais do que a própria literatura? Acha que é possível dissuadir um indivíduo de comprar um celular de R$ 1.000,00 e instigá-lo a comprar 15 livros e um celular de apenas R$ 500,00?

São muitas as questões, ora afirmações, ora interrogações, mas elas podem ser resumidas assim:

  • Poucos aspirantes a escritor valorizam os seus pares.

  • Literatura não vende porque os aspirantes a escritor não compram livros.

  • Como conscientizar os escritores de que literatura é mais do que a própria literatura.

  • Como dissuadir alguém de comprar menos coisas supérfluas para – também – comprar livros.

Aqui serão discutidos apenas os três primeiros tópicos. Em relação ao primeiro tópico, a verdade – a meu ver – é clara como a água. O segundo tópico é conseqüência direta do primeiro (ou conseqüência da falta de leitura. Sim, há escritores que não lêem, por incrível que pareça). O terceiro – que guiará este texto – é um questionamento às práticas dos meliantes.

Aparecem a todo momento centenas de escritores afoitos por terem seu talento reconhecido. Querer ser reconhecido por seu talento, por sua competência não é – nem deveria ser encarado como – pecado. No entanto, numa cultura nada meritocrática como a brasileira, querer possuir, querer ganhar, querer enfim, é visto com certa desconfiança. Se aliados ao querer, houver talento, inteligência e competência, ihhhh, o indivíduo corre o risco de ser crucificado, inclusive. Neste país, a forma mais fácil de se conseguir qualquer coisa, qualquer posto, é a bajulação, as relações pessoais, a intimidade, a troca de favores. Não encare isso como uma crítica. É a nossa realidade. É a nossa cultura.

No meio literário – microcosmo de uma cultura e sob sua influência –, esse tipo de relação é comum. Ok, nada mais justo do que ajudar quem te ajuda. Nada mais justo do que divulgar quem te divulga. Mas até quando funcionaremos apenas assim, na base do troca-troca? Quando faremos algo espontaneamente, pelo puro prazer de ajudar quem de fato merece? Um meio que sempre funciona dessa forma, na base do troca-troca, está dando um tiro no pé.

Reclamar que o seu talento (texto) não é reconhecido quando você nunca faz questão de: reconhecer o talento alheio; comentar – de forma sincera – os textos alheios; divulgar – sem pedir nada em troca – a arte alheia (mesmo que esse alheio seja desconhecido); comprar livros de autores iniciantes etc. – é reclamar sem razão. Essa prática é um ciclo vicioso. E pernicioso. Se todos resolvessem apenas se preocupar com o próprio umbigo, digo, com sua própria literatura, teríamos oferta mas não teríamos procura. Imagine mil livros publicados para apenas dez leitores. Essa é lógica do mercado – se não há consumidores, não há razão para a oferta do produto. Se poucos são os consumidores de livros, então nada mais lógico do que ser pequena a quantidade de exemplares impressos.

Este blogue, em vários momentos, incita todos, leitores, amantes, críticos e escritores, a praticarem o conhecidíssimo boca-a-boca, “que precisa efetivamente fazer parte das práticas de divulgação da arte literária”. Essa estratégia tem tudo a ver com a figura daquele leitor (que muitas vezes é escritor também) que não é passivo diante da mensagem. Ou seja, ele – leitor ativo – pode também, por vontade própria, contribuir para que a mensagem de um escritor específico seja conhecida por mais pessoas. Para tal, a internet – e seus Facebook, e-mail, Google+, Twitter etc. – é um meio extremamente eficaz. Enviamos e aceitamos e-mails de correntes idiotas, mas não enviamos nem aceitamos e-mails sobre Literatura.

A Literatura só fisgará outros leitores, desconhecedores dessa arte, se primeiramente os seus amantes começarem a propagá-la. A Literatura só passará a vender a partir do momento em que os seus amantes (leitores, críticos, escritores, professores) começarem a valorizá-la, e valorizá-la significa inclusive pagar um preço por tê-la para o seu entretenimento e prazer, seja ele qual for.

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02/07/2015
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