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Nem todo escritor é leitor (Ou sobre a importância da leitura)

Por Rogers Silva

No dia 08 de março, publiquei neste blog o texto Nem todo leitor é escritor (Ou sobre a literatura escrita com sangue). Hoje, inverti a máxima a fim de escrever outro texto, com outros argumentos, sobre a (des)importância da leitura. Poizé, leitor, enquanto alguns bravos tentam convencer a todos sobre a importância da leitura, outros, com sua literatura, demonstram que para ser escritor não é necessário ser leitor, infelizmente. Mas como assim?

Pode parecer incoerência eu defender a importância da leitura, sobretudo para aqueles que almejam ser escritores, quando afirmei no texto anterior o seguinte:

Ler livros, ou ler alguns livros, ou – pior ainda – ler poucos livros não dá a ninguém substância para se tornar um escritor. Mas que p…! de substância é essa? A meu ver, muito mais do que leitura, o escritor (de literatura) precisa de: sensibilidade, senso estético, senso crítico, conhecimentos (aí vale o de mundo, o da vivência/experiência (o que de forma alguma pode se confundir com maturidade ou velhice), o autoconhecimento, o conhecimento do humano, o conhecimento (o domínio) da linguagem, e até o conhecimento enciclopédico, embora esse não seja pré-requisito essencial) (SILVA, 2011).

Se ler bem, nas entrelinhas, forçando as vistas, perceberá que não há incoerência alguma, caro leitor encrenqueiro. Ler livros, claro está, não faz de ninguém um escritor, porque a literatura de verdade necessita de mais, do mais, de muito mais do que um certo arranjinho com as palavras, ou do que um enredinho cheio de peripécias e suspense. Arranjinho com as palavras até pode virar literatura, mas se elas não disserem nada, se elas não tocarem o leitor, se delas não escorrer sangue vermelho e espesso, essa literatura não sobreviverá. O enredinho cheio de peripécias e suspense normalmente é esquecido após o lançamento do próximo enredinho cheio de peripécias e suspense. E assim ad infinitum.

Mas como assim, o leitor ainda pergunta, há escritores que com sua literatura demonstram que para ser escritor não é necessário ser leitor? Sim, e aos montes. Basta ler a primeira página de determinados livros (ou um post de um blog, um conto, o primeiro capítulo de um romance, um poema ingênuo) que o leitor mais perspicaz perceberá que ali não há alguém que dê muito valor à leitura. Às vezes, não dá valor à leitura nem à revisão, o que é pior.

Há vários escritores que, mesmo sem terem lido alguns livros, querem publicar o seu. Há escritores que, sem nunca terem lido Machado/Guimarães/Shakespeare/Drummond/Poe/Lobato/Pessoa etc., querem (e às vezes até conseguem) fazer sucesso com sua literatura. Querer ser escritor sem saber como funcionam suas ferramentas de trabalho (as palavras, que formam frases e orações, que formam até poemas, poesia) é o mesmo que ser um músico sem noções de acordes, ritmos e estilos musicais, melodia, harmonia, escalas, partitura (e olha que isso é o básico do básico do básico da teoria musical, hein).

Em termos simplistas, a literatura é a arte de usar as palavras. Gustavo Bernardo, em seu texto O conceito de literatura, utiliza exemplos fora da literatura, como Picasso, Pelé e Hitchcock, para tentar explicar o processo de criação de um texto literário: todos se utilizam da “economia de meios”, que, em outras palavras, é a seleção “criteriosa e rigorosamente dos meios de trabalho e de ação”. Picasso seleciona as cores, os pincéis, as imagens, e os utiliza de acordo com sua criatividade, sua competência, seu talento. Pelé, a técnica, a habilidade, os dribles. Hitchcock, a imagem, os cortes, o som.

Como arte, e arte da palavra, a literatura também é produto desse rigoroso critério de seleção: escolhe-se essa palavra, e não aquela; escolhe-se essa rima, e não aquela; escolhem-se essas características para esse personagem, e não outras; escolhe-se essa forma, e não outra. No entanto, as opções são diversas apenas (e aí vale um negrito) para aqueles que possuem conhecimento e domínio das possibilidades de uso das suas ferramentas, as palavras. A leitura, em especial a leitura dos clássicos, é a prática que possibilita esse domínio. Agora entende, caro leitor, a importância da leitura para quem quer ser escritor? Embora ler livros (ou ler alguns livros, ou ler poucos livros) não dê a ninguém substância para se tornar escritor, a leitura é indispensável porque só a partir dela o indivíduo entra em contato com as diversas possibilidades de usufruto das palavras. E não é só por isso…

A leitura, outrossim, também pode contribuir com o senso estético do leitor/escritor. E com o seu senso crítico, os seus conhecimentos (o de mundo, o autoconhecimento, o conhecimento do humano, e até o conhecimento enciclopédico). E não é só com isso não…

Qual a função da literatura?, é outra questão levantada por Gustavo Bernardo em seu texto. Após lermos um livro (ou assistirmos a uma peça ou a um filme) retornamos, obviamente, à vida. No entanto, a arte, e a literatura especificamente, possui o poder de nos ajudar “a conviver com as nossas dores e com os nossos dramas”. Por isso a literatura é uma ficção necessária: uma mentira (justificável e) indispensável.

O escritor, no caso, seria o inventor dessa mentira, pois dá forma pública às suas fantasias e devaneios. Por outro lado, o leitor, o “homem comum”, joga o jogo da literatura e, com isso, amplia a própria realidade, visto que ela promove conhecimentos inexplorados e desconhecidos. Assim, por ser perigosa, muitos a acham desnecessária. E inútil. A literatura proporciona outra visão sobre as coisas, de um modo novo, alternativo. Sob esse prisma, a literatura é (ou deveria ser) fascinação, perplexidade. Para a viabilidade dessa fascinação, é essencial a “suspensão voluntária da descrença” (termo criado por Gustavo Bernardo), que é um exercício necessário para embarcar na leitura de um texto literário. Assim, ao lhe erguer um altar a literatura sacraliza o cotidiano, pois a literatura o reinventa, tornando-o menos banal. E ao tornar o cotidiano menos banal, torna nossa existência menos ordinária.

Luiz Costa Lima, em artigo publicado no Jornal do Brasil de 12 de setembro de 1998, diz que “a tradição insiste em tomar a ficção romanesca, ou como uma fantasia compensatória do mundo efetivo, ou como um espelhamento de certo tempo histórico, ou como uma reflexão imaginativa que desvela a ‘estrutura’ da sociedade”. Na verdade, a literatura é tudo isso e mais, porque é múltipla, polissêmica e polifônica, onde miséria e absurdo convivem com formas inesperadas de alegria. Essa é a dádiva que um escritor pode oferecer aos seus leitores. Mas para isso é preciso se esforçar. É preciso sangrar. A substância está em você, caro escritor. O domínio das suas ferramentas, com as quais deve trabalhar, só você pode alcançar. Se buscar.

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02/04/2015
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