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Nem todo leitor é escritor (Ou sobre a literatura escrita com sangue)

Por Rogers Silva
Nem todo leitor é escritor é uma premissa, a meu ver, verdadeira porque óbvia (alguém duvida de que nem todo leitor é escritor?), embora muitos insistam em desafiá-la e, assim, desafiar a lógica. Aqui, poderíamos acrescentar: Nem todo leitor é escritor de literatura, a fim de que nossa discussão fique mais clara e mais delimitada. Afinal, literatura é um dos assuntos que mais interessam aos leitores deste blogue, não? Sim.
Ler livros, ou ler alguns livros, ou – pior ainda – ler poucos livros não dá a ninguém substância para se tornar um escritor. Mas que p…! de substância é essa? A meu ver, muito mais do que leitura, o escritor (de literatura) precisa de: sensibilidade, senso estético, senso crítico, conhecimentos (aí vale o de mundo, o da vivência/experiência, o que de forma alguma pode se confundir com maturidade ou velhice), o autoconhecimento, o conhecimento do humano, o conhecimento (o domínio) da linguagem, e até o conhecimento enciclopédico, embora esse não seja pré-requisito essencial). Nas veias do escritor precisa correr (e de lá escorrer) sangue, e não água. Ou seja, indivíduos tábua-rasas (ou água-rasas) podem até se tornar escritores, mas provavelmente serão escritores medíocres, rasos, superficiais, porque escreverão cópias, ou cópias de cópias, ou livros-modelo, best-sellers de auto-ajuda, histórias insossas, bosta rala que escorre pelos dedos e não deixa marca alguma.
OBS: É preciso deixar claro que escrever com sangue e escrever literatura de entretenimento, ou auto-ajuda, ou best-seller, não são coisas excludentes. É possível, sim, escrever romances policiais interessantíssimos, por exemplo. É possível, sim, escrever auto-ajuda complexa, que não seja repetição ad nauseam de lugares-comuns. É possível, sim, escrever uma obra profunda e ela se tornar um best-seller (vide Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez).
Escritor que escreve tão-somente sobre livros, ou sobre a literatura, ou sobre a arte da escrita, ou histórias que nada possuem de humano, só escrevem por que: 1) aprenderam a imitar bem; 2) a seguir conforme os modelos; 3) ou porque não possuem a sensibilidade ou competência o bastante para olhar ao lado e escrever sobre o mundo e os humanos que o rodeiam, sem para isso precisarem de estereotipar tanto o mundo quanto os seus habitantes. Não há nada mais irritante do que personagem estereotipado (não digo quando isso é feito conscientemente, claro). Não há nada mais sem graça do que uma história que não arrebata, surpreende, incomoda, proporcione a sensação de soco no estômago. Prefiro mil vezes um (e apenas um) Campos de Carvalho com sua lua que vem da Ásia(1), que me arrebatou e incomodou, do que dez (ou mais) Paulo Coelho, que nem “cosquinha” me fez.
E escrever com sangue, caro leitor, não tem nada a ver com escrever difícil, ou escrever pedante (ao contrário, normalmente são os que não escrevem com sangue que escrevem pedante), ou escrever hermeticamente. Escrever com sangue significa escrever sobre e com a vida, escrever sob dores estranhas no estômago, escrever extasiado, escrever sob efeito de uma droga chamada deslumbramento, escrever sobre a condição humana, escrever sobre o humano, escrever chorando (é uma imagem que não precisa ser levada ao pé da letra) pois escreve-se sobre o mundo (que anda tão complicado(2)) e sua literatura quase nada pode contribuir para mudá-lo, infelizmente. Escrever com sintaxe invertida é fácil; algum conhecimento da linguagem basta possuir. Difícil é escrever com sangue, porque isso é para poucos, para os raros, para os loucos.
Eu duvido de um escritor que não seja pelo menos um pouco louco, mas de uma loucura lúcida, sem exageros, implícita, que não seja forjada. Dispensemos a loucura de butique de hoje em dia. Eu duvido que Fernando Pessoa, ou qualquer grande poeta, escrevia fingindo o tempo todo que era dor se dor não sentia(3). Fernando Pessoa, antes de ser poeta, era um ser de carne, osso e entranhas. E essas últimas, creio, doíam tanto às vezes que ele precisava escrever, como se escrever fosse um remédio de tarja preta, ou o emplasto de Brás Cubas(4), que tudo curaria se um dia tivesse sido fabricado. Tanto viver quanto escrever doem. Ou deveriam doer. Se não dói, vive-se num conto de fadas. Se não dói, escrevem-se contos de fadas. Os contos de fadas nos enganam descaradamente e – como diria um corinthiano – um dia a casa cai, mano.
E é dessa literatura nascida da dor(5) que precisamos no momento atual, porque alguns já não suportam mais (eu não suporto mais) a literatura rasa, repetitiva, sem criatividade (tanto conteudística quanto estruturalmente), os contos de fadas modernos, ou a literatura pretensiosa mas ininteligível, pedante, parnasiana pós-moderna, elitizada (porque feita para acadêmicos), que tem saturado as nossa estantes e as nossas mentes. Precisamos de uma literatura mais humana, feita por humanos, e não de uma literatura concebida em laboratório, seja no laboratório-editora ou no laboratório-academia. Literatura rica é aquela criada no laboratório-entranhas do escritor. É dessa que preciso. É dessa que precisamos.

Notas
(1) A lua vem da Ásia é um dos romances mais conhecidos de Campos de Carvalho.
(2) “Se todo animal inspira ternura, o que houve, então, com os homens?” (Guimarães Rosa)
(3) Autopsicografia, de Fernando Pessoa: O poeta é um fingidor. / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor que deveras sente. // E os que lêem o que escreve, / Na dor lida sentem bem, / Não as duas que ele teve, / Mas só a que eles não têm. // E assim nas calhas de roda / Gira, a entreter a razão, / Esse comboio de corda / Que se chama coração.
(4) Leia Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
(5) Alguns livros escritos com sangue: A lua vem da Ásia e Chuva imóvel, de Campos de Carvalho; A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade; Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis; Sobre heróis e tumbas, de Ernesto Sábato; A noite escura e mais eu, de Lygia Fagundes Telles; A hora da estrela, de Clarice Lispector; Memorial do convento e O ano da morte de Ricardo Reis, de José Saramago; Fogo morto, de José Lins do Rego; Angústia, de Graciliano Ramos; Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez; Bichos, de Miguel Torga; Emissários do Diabo, de Gilvan Lemos.
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08/03/2015
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