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O labor literário de Milton Hatoum: o arquiteto da memória

Por Kárita Borges

“Para escrever um romance é preciso ter muita paciência e entregar-se a um trabalho árduo com a linguagem” (Milton Hatoum)

Milton Hatoum é um escritor amazonense, filho de imigrantes libaneses, formado em arquitetura nos anos 70 pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (FAU/USP). Enquanto frequentava as aulas de seu curso, foi aluno ouvinte na Faculdade de Letras em disciplinas de literatura; tornou-se amigo de João Luiz Lafetá e teve como mestre Davi Arrigucci, que mais tarde fez a apresentação de Relato de um certo Oriente (1989), seu primeiro livro.

Ao se graduar, trabalhou em alguns pequenos projetos como arquiteto, mas não se sentindo realizado em sua profissão foi para Madri com uma bolsa de estudos, concedida pelo Instituto Ibero-americano de Cooperação, para estudar língua e literatura. Retorna ao país na década de 1980 e começa a lecionar língua e literatura francesa na Universidade Federal do Amazonas, onde ficou até 1998.

Seus primeiros romances são Relato de um certo Oriente (1989), Dois irmãos (2000) e Cinzas do Norte (2005). Esses relatos têm narradores em primeira pessoa, que contam suas histórias a partir de uma observação das mudanças ocorridas tanto nas casas em que habitam ou por onde transitam na cidade de Manaus, que também se modifica ao longo das narrativas. Tratam-se de histórias ancoradas pela memória, que se torna, assim, o pilar da narrativa hatouniana. É por essa razão que alguns críticos literários denominam o escritor manauara de o arquiteto da memória. Portanto, a memória é a pilastra da narrativa

[…] o tempo é a viga principal a sustentar a arquitetura narrativa. Aquele tempo, descoberta da modernidade, cujo fluir permite ao indivíduo manter contacto com o continuum de sua própria identidade, por meio da lembrança de fatos, atos e pensamentos passados, seus e de outrem. É o fluxo da memória, criando uma cadeia de causas e efeitos, elaborando a realidade por meio de um processo mental, ‘fecundando-a com um fermento de fantasia’ e, assim reconstituindo o cerne do indivíduo que narra (PELLEGRINI, 2004: 122). [1]

Relato de um certo Oriente encena o “cerne do indivíduo que narra”. Aborda a volta de uma mulher à terra natal (Manaus) e para a casa da infância, mas também para os conflitos familiares, porque este retorno torna-se “uma complexa viagem da memória a uma ilha do passado, onde o destino do indivíduo se enlaça ao do grupo familiar na busca de si mesmo e do outro”(ARRIGUCCI JR., 1999: 330). [2]

Dois irmãos tem como narrador-personagem Nael, que deseja saber qual dos irmãos gêmeos Omar e Yaqub da casa dos imigrantes libaneses em Manaus é o seu pai. Para isto o narrador precisa que os seus interlocutores, o patriarca Halim e Domingas, uma índia manauara que é a empregada da casa e sua mãe, contem-lhe sua origem. Porém, Nael se depara com a memória fragmentada de Halim e o silêncio de Domingas: “talvez por um acordo, um pacto qualquer com Zana, ou Halim, ela estivesse obrigada a se calar sobre qual dos dois era meu pai” (HATOUM, 2000: 80). Nael contará os fatos a partir do quarto dos fundos da casa, pois é o herdeiro bastardo daquele núcleo ao ser o filho da empregada, “a sombra servil de Zana”, matriarca dessa família.

A partir dessa autobiografia ficcional, narra-se também a história de uma cidade que já não é mais a mesma da infância do narrador, porque foi transformada com a implantação da Zona Franca de Manaus, pelo regime militar, que acaba de vez com os resquícios da belle époque amazônica.

Também há uma mudança na própria casa dessa família, que no final da narrativa se desfaz ao ser vendida para um indiano, dando lugar a um centro comercial, que vende produtos eletroeletrônicos made-in-china. Em Dois irmãos, o narrador, filho bastardo da família libanesa, conta-nos uma história de ruína tanto da casa quanto da própria Manaus.

Cinzas do Norte conta a história de Mundo, um jovem que se torna artista em pleno Golpe Militar de 1964 e que contesta este governo em suas obras. O desejo de Mundo é sair da região, mais especificamente da fazenda Vila Amazônia, situada abaixo do rio Amazonas, perto de Parintins, e ir para o Rio de Janeiro e para a Europa. A ânsia de Mundo em abandonar sua terra natal está ligada ao fato de ser o filho de Jano, um rico empresário da juta na região amazônica que, além de explorar seus empregados, não admite a escolha do filho pela arte. Há, por essa razão, um constante embate entre pai e filho.

No ano de 2008, Milton Hatoum lançou Órfãos do Eldorado,uma novela que tem Manaus como uma cidade-miragem:

Houve tempo em que Manaus, ou Manoa, era sinônimo de Eldorado, a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização. Essa miragem, que os desejos humanos engendraram e a história humana não cansou de dissolver, serve de mote a Órfãos do Eldorado, novela que dá seqüência à exploração ficcional do Norte brasileiro empreendida por Milton Hatoum desde Relato de um certo Oriente (Órfãos do Eldorado, Apresentação, 2008).

Em 2009, Hatoum publicou A cidade ilhada, seleção de contos em que a presença da Manaus cosmopolita continua a ser a obsessão literária do autor. Pela memória ficcional de narradores nativos e estrangeiros, o escritor mostra o contraste entre o esplendor de uma cidade arquitetada pelo boom da borracha, que foi tomada pela decadência das últimas décadas, e pelo deslumbramento encarnado na exuberância natural da região, com os seus rios, a fauna e a flora.

São contos permeados pela memória de narradores em trânsito, que mesmo não estando na cidade reportam-se a ela para contar seus relatos. Esses contos fazem parte da experiência do autor amazonense, um viajante que morou em várias cidades do Brasil e do exterior, e que transformou sua experiência de “expatriado”, longe da sua cidade e do seu país, em matéria literária.

Neste breve panorama da produção literária de Milton Hatoum, é preciso ressaltar os prêmios adquiridos ao longo de sua carreira como escritor, os quais foram fundamentais para dar credibilidade ao seu trabalho artístico: Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte foram vencedores do prêmio Jabuti de melhor romance, sendo que os dois primeiros foram traduzidos para vários países. Com Cinzas do Norte, Hatoum também recebeu os prêmios Bravo!APCA e Portugal Telecom de Literatura de 2006[3]. A notoriedade da obra do escritor amazonense também se dá pela aprovação do público-leitor.

Ao ser questionado a respeito do motivo que o levou a ter sucesso na venda de seus livros, Hatoum declara que talvez seja pelo fato de vir de uma região ainda muito desconhecida pelo restante do país: “ter nascido em Manaus faz com que se olhe o Brasil de outra perspectiva. O Brasil desconhece o Brasil, pouca gente conhece a Amazônia, [que] são tantas” (HATOUM, 2010).

Com autores como Milton Hatoum e Márcio Souza, o leitor de outras regiões do país compreende que a Amazônia brasileira, tema recorrente dessas obras, é uma esfinge, cujo caráter de mistério prevalece, como afirma Euclides da Cunha: “a Amazônia selvagem sempre teve o dom de impressionar a civilização distante” (CUNHA, 2006: 25). É importante compreender que nós, sul-americanos, pertencemos à Floresta Amazônica e que, por meio dela, estamos unidos numa fronteira que liga os oito países representantes da bacia amazônica (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Peru, Suriname e Venezuela). Com relação à Amazônia e suas fronteiras, Milton Hatoum argumenta, em entrevista concedida a Aid Rameza Hanania, que:

[…] a Amazônia não tem fronteiras; sim há uma delimitação de ‘fronteiras, mas para nós não passam de fronteiras imaginárias. Que importa, para os índios yanomamis, por exemplo, se eles foram assassinados na Venezuela ou no lado brasileiro? Para os índios, o território, a terra deles não tem fronteiras. E para todos nós, nascidos na Amazônia, a noção de terra sem fronteiras está muito presente […] Porque é um horizonte vastíssimo, em que as línguas portuguesa e espanhola se interpenetram em algumas regiões, onde as nações indígenas também são bilíngues, às vezes poliglotas (índios que falam tucano, espanhol, português). Há um mosaico de grandes nações, de tribos dispersas; na verdade, cada vez mais dispersas […] (HATOUM, 1993).[4]

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[1] Cf. PELLEGRINI, Tânia. “Regiões, Margens e Fronteiras: Milton Hatoum e Graciliano Ramos”. InDespropósitos: estudos de ficção brasileira contemporânea. 1.ª ed., São Paulo: Annablume; FAPESP, 2008.

[2] ARRIGUCCI, Jr., D. Outros Achados e Perdidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

[3] Todos os romances de Milton Hatoum foram editados pela Companhia Das Letras.

[4]  HANANIA, Aida Ramezá.  Entrevista – Milton Hatoum. In: Revista Collatio – Estudos acadêmicos, ano IV, n.6, 2001. Disponível em:

http//: www.hottopos.com/collat6/milton1.htm. Acesso em: 25 out. 2008.

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Narrativas de Milton Hatoum:

Relato de um certo Oriente (1989)

Dois irmãos (2000)

Cinzas do Norte (2005)

Órfãos do Eldorado (2008)

A cidade ilhada (2009) coletânea de contos

Um solitário à espreita (2013) coletânea de crônicas

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