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O Punhal de Martinha e a tradição literária

Por Kárita Borges

A análise efetuada por Roberto Schwarz[1] da crônica Punhal de Martinha, do escritor Machado de Assis, ilustra essa ideia de tradição literária, mostrando a relação entre o local, a literatura nacional em processo de formação, e o universal, tradição europeia.

A crônica fala de um intelectual brasileiro dilacerado entre a sua condição periférica neste Novo Mundo e uma possível admiração pelas tradições dos países europeus. Para exemplificar essa situação, Machado desenvolve uma comparação entre dois punhais. Um é o instrumento por meio do qual Lucrecia se suicida em Roma, após ter sido desonrada por Sexto Tarquínio, de acordo com o relato de Tito Lívio, historiador romano. Esse punhal, conforme relata Machado, “podia ter ficado no peito da heroína, sem que ninguém mais soubesse dele; mas, arrancado por Bruto, serviu de lábaro à revolução que fez baquear a realeza e passou o governo à aristocracia romana”[2]. O outro foi usado por Martinha, uma jovem moradora em Cachoeira, interior da Bahia, para matar João Limeira, homem do povo, que a importunava, segundo o relato de um jornal local.

Então, o leitor se pergunta: o que a história de Lucrecia tem em comum com a de Martinha? Será que a jovem brasileira só existiu na literatura nacional pela razão de que a heroína romana deu fim a sua própria vida? A esse questionamento, o próprio leitor, atento às discussões sobre a nação, pode responder: a nossa literatura somente se formou pelo fato de ter a europeia como herança cultural. A metáfora do galho utilizada por Antonio Candido se encaixa perfeitamente nesta discussão, já que a nossa literatura é “galho secundário da portuguesa, por sua vez arbusto de segunda ordem no jardim das Musas” 

Na análise de Schwarz, compreende-se que há um ressentimento do intelectual periférico em relação à nossa condição de colonizados, visto que apesar de nascermos universais estamos fadados à condição local, uma vez que o punhal de Lucrecia será sempre lembrado pela História, e o de Martinha, “esta pobre arma vai ser consumida pela ferrugem da obscuridade”, “irá rio abaixo do esquecimento”, porque nossa elite intelectual sempre tendeu em (re)conhecer os clássicos:

[…] tudo conservado em livros recomendados, notáveis pelo apuro da gramática, é claro que não deixam lugar para a mocinha da Cachoeira, que tem endereço e ofício conhecidos, erra na colocação de pronomes [não se aproxime, que eu lhe furo] e não foi celebrada pelos poetas (SCHWARZ, 2006: 75).

Dessa forma, Machado de Assis demonstra seu descontentamento, enquanto intelectual imbuído de uma tradição europeia, a respeito de nossa situação histórica de país dependente da Europa, tendo vista que

 […] a experiência local, sendo um núcleo de identidade, tanto impulsiona como desmerece e empareda o seu portador. A mescla das dicções interioriza e encena a crise, que se resolve nas linhas finais, pela derrota: depois de indignar-se com a “desigualdade dos destinos”, que só recolhe e transmite o que está nos livros canônicos e ignora o que existe na realidade — leia-se o Brasil —, o escritor joga a toalha e toma o partido do opositor, o beletrista amestrado que ele tem dentro de si. “Mas não falemos mais em Martinha”, quer dizer, não falemos do Brasil (idem, 2006: 73).

 Nesse sentido, percebe-se que Machado de Assis, em sua produção estética e por ser seguidor de uma tradição, apreendeu um dilema entre a literatura e a nação brasileira: a literatura se estruturou enquanto sistema pautado numa continuidade do modelo europeu e, assim, criou para si um modelo de representação da sociedade. Porém, o ideário de nação que possibilita o acesso aos bens sociais e culturais, à maioria da população, não se concretizou.

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[1] SCHWARZ, Roberto. Leituras em competição. Novos EstudosCEBRAP, n.75, jul. 2006: 61-79.

[2] Citação da crônica Punhal de Martinha.

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21/03/2015
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