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Realidades alternativas

Por Sinvaldo Júnior

 

O espaço é curto. O livro é longo (415 páginas); os contos e autores são muitos (dezoito autores com um conto cada). Futuro presente – dezoito ficções sobre o futuro é uma coletânea de contos (alguns curtos, outros nem tanto) de ficção científica, organizada pelo famigerado Nelson de Oliveira, coordenador de outras tantas antologias e projetos célebres e desbravadores, como o Projeto Portal, também de fc e fantasia.

A capa da coletânea é de muito bom gosto; as orelhas idem; preocupação e esmero ao que é externo em um livro, como em qualquer livro de Nelson de Oliveira (e na maioria dos livros publicados no Brasil). Atente-se, futuro autor, para este “detalhe”. A escolha dos autores privilegiou a mistura de gerações e estilos – desde autores consagrados, como Márcio de Souza (cuja obra Mad Maria se tornou mini-série da Globo), a autores desconhecidos, com certa predominância de autores que nasceram no estado de São Paulo (dez dos dezoito). Problemas de logística, provavelmente, porque em outros estados não representados no livro devem, sim, existir ficções sobre o futuro.

Após a leitura de livros como esse, surgem as questões: Por que nós, brasileiros, lemos tantas obras estrangeiras? Por que assistimos a tantos filmes vindos dos USA, inclusive àqueles futuristas com a irritante mania de tentar convencer o resto do mundo de que salvarão o mundo do apocalipse, como bons heróis que são?

Os antropólogos e historiadores responderiam: dentre alguns traços característicos da cultura brasileira, um dos mais perceptíveis é a valorização do estrangeiro em detrimento do que é nacional. Os sociólogos mais radicais responderiam: o capitalismo é selvagem e privilegia os que possuem mais poder, mais condições, mais ferramentas em mãos (dentre as quais as da publicidade e propaganda), realidade que vale também para o mercado cinematográfico e editorial. Outros responderiam: por pura diversão ou por necessidade de entretenimento e fruição. Cada qual com sua opinião, todos têm razão.

Inicio esta resenha com um trecho da orelha do livro escrita por Fábio Fernandes: “Temos contos passados em outros planetas, raças estrangeiras em futuros distantes, alienígenas entre nós, experiências genéticas loucas, telepatia, viajantes descendo em maelströms intergalácticos. Enfim, tudo tem”. Sim, leitor, conteúdo diverso (dentro da temática proposta) com linguagens diversas – desde as mais tradicionais, que cumprem a sua única função de contar uma história, até as mais (mas nem tanto assim) experimentais. Experimentalismos linguísticos em ficção científica funcionam, funcionariam? Existe (surgirá?) o Guimarães Rosa da fc? Não sintetizarei os dezoito contos. Nem comentarei sobre todos. Escolhi cinco aleatoriamente (será?) e sobre eles farei meus comentários sintéticos e despretensiosos.

Ausländer, de Mustafá Ali Kanso, é o famoso conto sessão da tarde, e nesse termo não há nada de pejorativo, leitor pedante. A história começa com uma reunião entre quatro colegas universitários (pelos nomes, brasileiros, embora fique aquela impressão de que o ambiente é muito mais USA do que tupiniquim) – Felipe, Melina, Túlio e Mendes, em que sobressai, pela feiúra, e por ser o protagonista e dono da casa, Felipe: “A palavra horrível cabia em sua descrição como um simples eufemismo” (p. 99). Jovem cheio de espinhas, feio, narigudo, cafona, sem amigos mas com muitos desafetos, motivo de chacota, apesar-de-tudo-nem-por-isso-inteligente (até os nerds o detestavam), Felipe era o terrorista USA em potencial (se é que o leitor me entende…). Para piorar a situação, ele se interessa por Melina, uma mulher e tanto. O autor é afeito às descrições tanto dos personagens (física e psicologicamente) quanto do espaço, e essa característica de forma alguma compromete a fluidez da história, que gira em torno dum acontecimento estranho: para um trabalho da faculdade, a turma decidiu instalar várias minicâmeras no campus a fim de… Após um acontecimento estranhíssimo (um jovem estudante, diante da câmera escondida, se transforma numa criatura esquisita), o objetivo deles já não importa. A partir disso, advêm a paranóia, os mistérios, o medo, as acusações, as desconfianças (será o outro também uma criatura dessa, um ausländer?). Muitas coisas ainda acontecem (são 35 páginas de história), com direito a concretização de amor impossível e final feliz. Bom!

Espécies ameaçadas, de Márcio de Souza, é um conto com linguagem simples, direta, que enfatiza o enredo. Inicia-se bem, com um assassinato de um casal de adolescentes em uma festa de São João numa cidade do norte do Brasil. Ler uma história ambientada num espaço pouco explorado pela literatura brasileira (oriunda sobretudo do sudeste, do nordeste e do sul) por si só fisgará o leitor menos familiarizado com os espaços da trama. Após esse primeiro assassinato, outros, com as mesmas características, acontecem. Aí se dá uma busca pela decifração dos crimes, em que o biólogo (narrador) se mete, contrariado. É certo que a decifração dos crimes vai ao encontro do que o biólogo sempre disse sobre o possível criminoso. Apesar da obviedade, é um bom conto até sua metade – até a entrada do personagem Grass. A partir daí, uma série de clichês: milionário = vilão; nazista = vilão; alemão = anti-semita; alemão com ideais de purificação/eliminação das raças; nazista com intimidade com o governo iraniano, que se identificam por serem ambos anti-semitas e negarem o holocausto etc. etc. etc – tudo o que os filmes de lá e a Globo e a Veja (e a mídia quase em geral) já cansaram de repisar. O problema nesse conto não é, de forma alguma, o seu conteúdo, mas sim a forma como esse conteúdo é tratado – daí os lugares-comuns, que poderiam ser evitados.

Vladja, de Ivan Hegenberg, é uma história de amor, de sofrimento, de saudade e de morte, mas com um detalhe – passada no século XXIII e, em conseqüência, contextualizada num futuro que é diferente do presente, ou seja, com direito a maquininhas e robôs como pano de fundo. O resto (que é tudo no conto) é como todas as histórias de amor de qualquer tempo, e isso não quer dizer, leitor, que ele seja ruim. Não. Vladja, a protagonista e narradora, por meio de uma declaração de amor a Goran, relata o início, o desenvolvimento e o desfecho de sua relação. É verossímil matar por amor? Eis um trecho: “Eles são capazes de absolver crimes de vingança, quem sabe até serem compreensivos com um criminoso político (…) Mas a mim consideraram um monstro. Porque meu assassinato fere tudo aquilo que eles entendem por amor” (p. 349). Essa e outras questões são tratadas no conto.

Descida no Maelström, de Roberto de Sousa Causo, trata de uma belicosa expansão territorial dos humanos e descreve, muitíssimo bem, com excesso de pormenores, uma guerra no espaço. Este conto, com sua linguagem ora inovadora e difícil (com direito a muitos neologismos), proporciona ao leitor entrar em outra realidade, tão bem criada e tão detalhada, que os euro-russos, os robôs-tadai, os quadrúpedes esbeltos do Povo de Riv, os quase humanóides folsoranos, os encarapaçados mukbukmabaksai, e Peregrino, o protagonista, passam a ser personagens criadas pelo leitor, que acompanha vidrado as cenas de ação e aventura da história. Phlegethon – planeta onde tudo acontece – passa a ser o seu quarto, caso o leitor aí esteja. De leitura não muito fácil, é certo, o conto propicia doses de entretenimento dos bons ao leitor, que não se arrependerá se persistir.

Um dos requisitos básicos de uma boa obra literária é conseguir, astutamente, que o leitor entre em um novo plano, de forma que ele esqueça, naquele momento da leitura, de todos os percalços da vida e se preocupe com os percalços da ficção lida. Vários dos contos do Futuro presente conseguem essa proeza, entre eles Nostalgia, de Luiz Bras. Em Nostalgia, Vitória encontra o seu próprio corpo boiando sem vida na banheira de sua casa. Alucinação? Sonho? Realidade? Após este ponto de partida, perseguições, muita ação, a criação de uma hiper-realidade a fim de libertar o homem – libertaria? Enredo ágil, linguagem direta – o que não significa que seja um conto fácil ou facilitador. Não. Aqui, complexa é exatamente a trama, e não a linguagem. Em contrapartida à aparente complexidade do enredo, o futuro, no conto, é bem desenhado (autobolhas, monitoração – sim, essa palavra existe – de pensamentos, videofonema, carga paralisante, veículos flutuadores, neuroprótese etc.), o que facilita a entrega do leitor. Entregue-se, leitor.

Não é necessário se basear nas listas dos mais vendidos de revistas não confiáveis nem de assistir a filmes saturados de clichês para buscar entretenimento, diversão e fruição. Na literatura brasileira há muitos livros que conseguem, e bem, transportar o leitor para uma nova realidade e ser um meio interessante de investigação e imaginação. Em Futuro presente há várias realidades, umas mais outras menos convincentes, umas mais outras menos cativantes. Em algumas delas é impossível sair intacto, tamanha é a capacidade dela de maravilhar o leitor.

Experimente, leitor, trocar aquele livro estrangeiro sobre pipas, ou aquela superprodução estadunidense, ou aquele filme repetidíssimo da Sessão da Tarde, ou aquele vídeo-game com gráficos impressionantes pela coletânea Futuro presente. Não sairá perdendo; ao contrário, só tem a ganhar. E ganhará muito.

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17/05/2015
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