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Um livro pretensioso em sua proposta

Por Sinvaldo Júnior

 

A primeira coletânea de contos de Luiz Bras, Paraíso Líquido, é um livro pretensioso. Nas próprias palavras do autor, fugir do lugar-comum foi o seu objetivo. No entanto, Luiz Bras, com seu livro, não se propõe a renovar a linguagem literária, ainda bem, porque de tentativas de renovação da linguagem a literatura brasileira está saturadíssima. Hoje em dia, essa prática se tornou lugar-comum entre os escritores bem pensantes. Mas, afinal, após Guimarães Rosa e Clarice Lispector isso seria possível?

Luiz Bras se propõe, sim, a renovar as temáticas comumente utilizadas pelos autores contemporâneos brasileiros: periferia, violência urbana, dramas conjugais, adolescentes desnorteados, sexo etc. Paraíso Líquido aborda, em seus contos, o indivíduo ante as novas tecnologias, ante os avanços da medicina, ante as futuras crises sociopolíticas etc. É uma coletânea pretensiosa na medida em que se propõe a aliar o fandom e o mainstream, a alta literatura e a literatura de gênero/literatura de entretenimento. Ora, mas ele conseguiu?

O conto que abre a coletânea, Primeiro contato, é tematicamente infantil (ou infanto-juvenil) mas com uma linguagem adulta:

     Ele fala e eu vejo os estupendos anéis de Saturno a dez centímetros da ponta do meu nariz. Magníficos, esses anéis de sorvete. Ele fala e eu atravesso nuvens de poeira líquida e perfumadas caudas de cometa. Ah, sente só essa fragrância.

O Turco, nem amigo nem inimigo de Tiago (narrador-personagem), captura o garoto de pele cinza, unhas vermelhas, olhos de gelatina e escamas nas costas. O garoto de outro planeta. O garoto extraterrestre. Será? Tiago faria tudo para ver esse garoto diferente. É em torno dessa captura e da possibilidade desse contato que a história gira.

     Memórias é um conto sobre a mãe (atordoada, confusa, com falhas de memória) que mata a filha e sobre o conseqüente suicídio após a tomada de consciência de que aquela era, mesmo, sua filha. É sobre uma mulher, a mãe, cuja mente é manipulada por dois estudantes de contabilidade que, por sua vez, são manipulados por dois estudantes de engenharia.

Toda a história de Nuvem de cães-cavalos se passa no pátio externo – longe da confusão dos portões de embarque – de um aeroporto. Neste conto aparece uma personagem marcante, Nádia (Vi seus olhos. Eram os olhos mais desolados dessa manhã cinza. O cabelo não muito curto, muito negro e muito liso acentuava sua tristeza). Na conversa entre o narrador-personagem e Nádia, o leitor fica sabendo que se trata de uma história sobre testes com implantes neurológicos, os quais estavam dando maus resultados: os primeiros pacientes – milhares deles – estavam enlouquecendo de muitas maneiras dolorosas. Cria-se então o mistério: dos dois, quem seria o implantado?

     Daimons é uma história sobre crianças. Amanda tem oito anos e pinga, todo dia, uma gota de veneno no café da manhã dos pais. Ela os odeia. Ela os ama. Ela herdou a neoplasia maligna deles. Ela está com leucemia. Assassinar os pais antes que eles assassinem o mundo (…) Triste não é morrer. Triste é sair da vida sem ter compreendido um por cento do seu mistério – são coisas que os brinquedos colocam na cabeça das crianças. São coisas que Mambo Jambo, o brinquedo, coloca na cabeça de Amanda. Daimons é um conto sobre crianças e brinquedos assassinos.

     Aço contra osso é uma história sobre simulações, ou falsos outros do protagonista, com os quais ele trava uma batalha desgastante (quarenta e cinco dias). É uma batalha contra uma simulação viciada em incorporar as pessoas. É uma batalha exaustiva, porque antes de as equações do sistema serem resolvidas a simulação localiza a saída e escapa para outro cenário. O objetivo da batalha, para o protagonista, é a procura da sua esposa e filha, que foram incorporadas pela simulação.

Com o intuito de mudar o passado (sobretudo a morte de sua filha Thaís), Zepelim, protagonista do conto Déjà-vu, viaja em busca de uma máquina do tempo, localizada em outro planeta: Que criatura superior, que civilização estonteantemente avançada escolheria uma região como essa de um planeta como esse, bruto e irracional, em todos os sentidos, para guardar sua joia mais preciosa? Essa máquina do tempo – feita de luz e sombra, cores e sabores, sons e cheiros – está no topo de um zigurate há trezentos milhões de anos.

O resumo desses seis contos (num total de treze) é apenas um aperitivo de Paraíso Líquido, de Luiz Bras. Para saber se o autor conseguiu ou não o que propôs (renovar as temáticas da alta literatura brasileira), e se foi competente em sua proposta, só lendo.

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30/06/2015
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